Lucas 18 1 a 8 - A Parábola do Juiz Iníquo



A parábola do juiz iníquo - Lucas 18 1 a 8

Uma leitura à luz da fé reformada


1. Nosso contexto: a Igreja precisa perseverar

Lucas introduz a parábola dizendo:

“E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer.” Lucas 18 1.

Essa frase é fundamental para se compreender a intenção de Jesus.

A questão não é “como conseguir de Deus aquilo que queremos”. O assunto é “perseverança na fé enquanto aguardamos a intervenção de Deus”.

Isso fica ainda mais evidente quando olhamos para o final do capítulo 17. Jesus havia falado sobre a manifestação do Filho do Homem e sobre o caráter inesperado de sua vinda.

Portanto, há uma sequência entre os capítulos 17 e 18:

→ Cristo voltará 

→ O povo de Deus precisa perseverar 

→ A oração sustenta essa perseverança.

Na perspectiva reformada, isso nos lembra que a vida cristã acontece entre a obra já realizada por Cristo e a consumação futura do Reino.


2. A viúva: uma pessoa sem recursos

Jesus nos apresenta uma viúva (Lucas 18 3) que procurou um juiz:

“Havia numa cidade um certo juiz que nem a Deus temia, nem respeitava homem algum.” Lucas 18 2.

A viúva representa alguém que não possui poder, influência ou recursos para fazer justiça por si mesma.

Ela simplesmente insistiu:

“Faze-me justiça contra o meu adversário.” Lucas 18 3b.

Aqui encontramos algo muito importante.

A viúva não abandonou a sua causa, mesmo diante de um sistema aparentemente indiferente e errático.

  • Ela continuou pedindo.
  • Continuou procurando.
  • Continuou insistindo.

E aqui está uma aplicação muito importante:

  • A fé verdadeira não significa ausência de dificuldades.
  • A fé verdadeira persevera justamente quando existem dificuldades.


3. O juiz não representa Deus

Esse é talvez o ponto que mais precisa ser esclarecido.

Jesus não está dizendo: “Deus é parecido com esse juiz.”

Pelo contrário. O juiz é deliberadamente apresentado como alguém perverso:

  • Não temia a Deus
  • Não respeitava os homens
  • Não possuía compaixão alguma
  • Não estava interessado em fazer justiça.

Deus, entretanto, é exatamente o oposto.

Jesus usa um argumento da contraposição, do menor para o maior.

Se até um juiz injusto acaba atendendo uma pessoa por causa da sua insistência, quanto mais Deus, que é justo e bondoso, fará justiça aos seus eleitos?

Por isso Jesus pergunta:

“Não fará Deus justiça aos Seus escolhidos, que a Ele clamam dia e noite?” Lucas 18 7.

Essa expressão, “seus escolhidos”, é especialmente significativa numa leitura reformada.

Grandes diferenças entre o juiz e Deus.

Podemos resumir o argumento de Jesus assim:


| Juiz iníquo                      | Deus                                

| -------------------------------  | ----------------------------------- 

| Não teme a Deus           | É perfeitamente santo               

| Não respeita pessoas    | Ama seus filhos                     

| Não queria fazer justiça | Ama a justiça                       

| Age por conveniência     | Age segundo Sua perfeita vontade   

| É indiferente                   | É misericordioso                    

| A viúva precisa insistir    | Deus já conhece nossas necessidades 

| É injusto                         | Deus é perfeitamente justo          


Portanto, se uma viúva consegue obter justiça de um homem perverso por meio de sua perseverança, quanto mais os filhos de Deus podem confiar que o Pai fará justiça aos seus escolhidos!


4. “Seus escolhidos”: a soberania da graça

Jesus não diz: “aqueles que escolheram Deus.”

Ele diz: “Seus escolhidos”.

A iniciativa pertence a Deus.

Isso se harmoniza profundamente com a doutrina reformada da Eleição Soberana.

O cristão não começa sua caminhada porque conseguiu encontrar Deus por sua própria capacidade espiritual.

  • Deus o chama.
  • Deus o regenera.
  • Deus lhe concede fé.
  • Deus o sustenta.
  • E Deus o conduz até o fim.

Portanto, a oração perseverante da Igreja não é uma tentativa de convencer Deus a amá-la.

Ela é a resposta daqueles que já foram alcançados pela graça.


5. A perseverança na oração não muda a vontade de Deus

Existe uma interpretação equivocada dessa parábola que diz: “Se eu insistir bastante, Deus finalmente vai me dar aquilo que estou pedindo.”

Isso transforma oração em uma espécie de mecanismo de pressão sobre Deus.

Não é isso que Jesus ensina.

Na Teologia Reformada, Deus é soberano e Seus decretos são perfeitos.

Então surge uma pergunta:

Se Deus já determinou todas as coisas, por que orar?

Porque Deus não apenas determina os fins; Ele também determina os meios.

A oração é um dos meios pelos quais Deus realiza Seus propósitos.

Deus determinou que Seus filhos perseverariam.

E determinou também que eles perseverariam clamando a Ele.

Assim, nossa oração não muda Deus.

Nossa oração participa daquilo que Deus soberanamente decidiu realizar.


6. “Dia e noite”: perseverança

Jesus fala daqueles: “que a Ele clamam dia e noite”.

Isso não significa necessariamente passar 24 horas verbalizando pedidos.

A ideia é de constância, dependência e perseverança.

  • O cristão continua buscando Deus.
  • Mesmo quando não vê resposta.
  • Mesmo quando a situação parece piorar.
  • Mesmo quando não entende os caminhos da providência.

É aqui que a passagem conversa muito bem com a experiência cristã.

  • Às vezes oramos: “Senhor, por favor me ajude a resolver isso.”
  • E Deus parece responder: “Espere.”
  • Então oramos novamente.
  • E esperamos.
  • E continuamos orando.
  • Isso não significa falta de fé.

Continuar orando enquanto esperamos é justamente uma das maiores demonstrações de fé.


7. “Quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na Terra?”

Essa é a pergunta mais impressionante da parábola.

Jesus começa falando sobre oração perseverante, mas termina falando sobre fé.

Isso mostra que oração e fé estão intimamente ligadas.

A grande questão não é simplesmente: “Deus responderá?”

A questão é: “Nós continuaremos confiando nele enquanto esperamos?”

Essa é uma questão profundamente reformada.

Porque a perseverança dos santos significa que aqueles que verdadeiramente pertencem a Cristo serão preservados por Deus até o fim.

Não significa que o crente jamais ficará abatido.

Não significa que nunca terá dúvidas.

Não significa que nunca chorará.

Significa que a graça de Deus não permitirá que seus verdadeiros filhos sejam finalmente abandonados.

  • Para viver uma vida cristã fiel é necessária fé.
  • Para perseverar na fé é necessário depender de Deus.
  • E essa dependência se manifesta na oração.

Portanto, podemos enxergar uma sequência:

Fé → dependência → oração → perseverança → esperança na vinda de Cristo (Lucas 17 20 a 37).


8. A parábola não promete que receberemos tudo o que pedirmos

Esse ponto é fundamental.

Jesus não está ensinando:

“Peça bastante que Deus dará exatamente aquilo que você quer.”

A promessa é maior e melhor:

“Deus fará justiça aos seus escolhidos.”

Ou seja, Deus responderá segundo sua: 

  • Justiça
  • Sabedoria
  • Vontade soberana.

É preciso saber receber a vontade de Deus e entender que ela é perfeita, boa e agradável (Romanos 12 2).

  • Às vezes a resposta será: “Sim.”
  • Às vezes: “Não.”
  • Às vezes: “Ainda não.”

Mas nenhuma dessas respostas significa abandono.

Porque o fundamento da nossa esperança não está naquilo que recebemos.

Está naquEle em Quem confiamos.


9. Uma aplicação pastoral

Essa parábola fala especialmente ao cristão que está cansado de esperar.

Talvez alguém esteja dizendo: “Eu já pedi tantas vezes.”

Jesus responde: "Continue orando."

“Eu já estou esperando há muito tempo.”

"Continue confiando."

“Parece que Deus não está ouvindo.”

"Continue clamando."

“Não estou vendo nenhuma solução.”

"Continue crendo na providência de Deus."

Porque a ausência de uma resposta imediata não significa ausência de Deus.

Deus pode estar trabalhando justamente durante o período em que você pensa que nada está acontecendo.


10. A perspectiva reformada: Deus preserva aqueles que Ele escolheu

Aqui chegamos ao coração teológico da passagem.

O cristão persevera porque Deus o preserva.

Nossa perseverança não é uma conquista independente da graça.

É fruto da graça.

Podemos dizer que:

Nós perseveramos porque Deus nos preserva; e Deus nos preserva por meio da nossa perseverança na fé, na Palavra e na oração.

Isso preserva simultaneamente duas verdades:

A soberania de Deus e a responsabilidade humana.

  • Deus é soberano. Mas o cristão deve orar.
  • Deus elege. Mas o cristão deve perseverar.
  • Deus preserva. Mas o cristão deve permanecer na fé.

Não são verdades concorrentes.

São verdades que caminham juntas na Escritura.


Conclusão

A parábola do juiz iníquo não é principalmente uma aula sobre como convencer Deus.

É uma aula sobre como permanecer confiando em Deus enquanto esperamos.

E Jesus termina colocando uma pergunta sobre a nossa fé:


“Quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na Terra?”


Essa é a pergunta que deve ficar conosco.


Não apenas: “Deus vai responder minha oração?”

Mas:

“Enquanto espero a resposta de Deus, continuarei confiando nEle?”


Na perspectiva reformada, podemos descansar nesta certeza:

  • O Deus que elege seus filhos é o mesmo Deus que os sustenta; 
  • O Deus que os sustenta é o mesmo Deus que os conduz à perseverança; e 
  • O Deus que os conduz à perseverança os guardará até a volta de Cristo.


Por isso:

  • Ore
  • Persevere
  • Espere
  • E não desanime.


Soli Deo Gloria!!!


Fonte bibliográfica de pesquisa eletrônica:

1. HENDRIKSEN, William. The Gospel of Luke. New Testament Commentary. Grand Rapids: Baker Book House, 1978.

2. CALVIN, John. Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke. Grand Rapids: Baker Book House.

3. BOCK, Darrell L. Luke 9:51–24:53. Baker Exegetical Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Baker Academic, 1996.

4. GREEN, Joel B. The Gospel of Luke. The New International Commentary on the New Testament. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1997.

5. ROBERTSON, A. T. Word Pictures in the New Testament. Nashville: Broadman Press.

6. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã.

7. SPURGEON, Charles H. O Tesouro de Davi. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas.

8. MURRAY, John. Redemption Accomplished and Applied. Grand Rapids: Eerdmans, 1955.

9. BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. São Paulo: Cultura Cristã.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os Degraus do Crescimento Espiritual

Carta à Igreja em Filadélfia - Uma Igreja Fiel

A Arte de Falar e o Poder das Palavras