Carta à Igreja em Sardes - "E Estás Morto"



Apocalipse 3 1 a 6

"Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto." Apocalipse 3 1b.


Um Pouco Sobre a Cidade

Sardes era uma cidade pequena, cuja maior glória se encontrava no passado, quando fora capital da Líbia, centro do Império Persa. No fim do primeiro século, quando foi escrito o Apocalipse, já era considerada uma cidade pequena e pouco expressiva em termos culturais e políticos. Por outro lado, por ser encruzilhada de caminhos das tropas romanas, tornara-se um centro de comércio e de intercâmbio de mercadorias, como jóias e manufaturados têxteis, e prosperava em termos econômicos, podendo ser considerada uma cidade rica.

Parte integrante do dia-a-dia de Sardes era a participação em cultos idolátricos e pagãos. Diz Andrew Tait, historiador, que o povo de Sardes adorava a deusa-mãe "cibele", cujo culto era do mais degradante caráter, com orgias semelhantes às do culto a "dionísio" e festivais que envolviam toda a cidade. Heródoto nos informa que os habitantes de Sardes tinham, através de muitos anos, adquirido uma reputação de flacidez moral e até de aberta licenciosidade.

Além disso, Sardes era uma cidade orgulhosa do seu passado, de suas glórias. Orgulhava-se de sua privilegiada situação geográfica que a tornava praticamente inexpugnável do ponto de vista militar. Situada na parte mais proeminente de um planalto, rodeada de desfiladeiros, com uma única via de acesso, junto à Cordilheira de Tinobus, não foi difícil para a igreja de Sardes entender as palavras de Cristo: "Virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti", pois, em 549 a.C., Ciro, o grande soberano persa, havia conquistado a cidade depois de catorze dias de cerco durante uma incursão militar sorrateira, escondida sob o manto negro da noite, em hora que a cidade não esperava.

É interessante também observar que não há referências a nenhum tipo de oposição ao evangelho: não se mencionam os judeus, nem perseguições, nem satanás. Parece correto afirmar que a ausência de adversidades tende a formar uma igreja flácida e descomprometida. Vejamos a seguir.


Um Resumo da Situação da Igreja (vv. 1,2)

1 - "Tens nome de que vives, e estás morto". É sugestivo notar a diferença radical de pontos de vista aqui. "Tens nome de que vives" sugere a apreciação que outros tinham pela igreja de Sardes. Diz respeito à sua fama. Provavelmente indica também o conceito que os membros da Igreja tinham de si mesmos. É muito lícito visualizar a comunidade em plena atividade e ebulição: diversos programas, corre-corre, preparativos, piquenique, jantares, reuniões de jovens, adolescentes, senhoras, diáconos e presbíteros. A fama de Sardes era de igreja viva. É provável que os cultos e reuniões fossem também bastante animados com muitos cânticos e expressões de louvor; o púlpito, quem sabe, cheio de eloquência e dinamismo: muitas palavras, pouco da Palavra! Sardes era a igreja da moda, ganhava facilmente o aplauso e a glória dos homens. Mas Paulo diz em Gálatas 1 10:

"Porventura procuro eu agora o favor dos homens, ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens não seria servo de Cristo".

A diferença se estabelece aí: Sardes agradava aos homens e tinha fama de ser igreja viva, mas o veredicto pronunciado por Cristo é o oposto disso: "estás morta".

2 - "Consolida o resto que estava para morrer." O que não está morto está morrendo e a razão Cristo dá em seguida: "Não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do Meu Deus". Há duas realidades terríveis, às quais este versículo nos alerta. Primeira: que aos olhos de Deus importa mais a qualidade do que a quantidade do nosso serviço. Sem que isto justifique de nossa parte qualquer preguiça ou corpo mole, a idéia apresentada aí é de um serviço defeituoso: "não tenho achado íntegras as tuas obras". A palavra íntegra significa literalmente completa, plena, perfeita. Obras não íntegras são aquelas feitas com a motivação errada, com excesso de confiança no homem e nos métodos ou de complacência para com a ganância e a sede de poder e glória que nos assediam a cada um de nós. A segunda realidade que nos importa relembrar aqui é a pessoa diante da qual agimos, vivemos e nos movemos e aquEle a quem haveremos de prestar contas. Cristo diz a Sardes: "tuas obras não são íntegras na presença do meu Deus". Muitas vezes nos esquecemos de que os olhos do Senhor a tudo vêem. Pensamos encontrá-Lo semanalmente, domingo na Igreja (onde Deus mora e onde O visitamos?) e depois vivemos a fazer o que achamos por bem: Deus fica para trás, na casa dEle. Ah, que tremenda verdade, digna de ser resgatada, pregada e incandescente no nosso coração: todos estamos na presença de Deus e é neste critério que fazemos, ou deixamos de fazer, as obras que Ele de antemão preparou para andarmos nelas.


O Recado Específico para a Igreja (versos 2 e 3)

Diante desta situação, Cristo deixa um recado que constitui seríssima advertência para a igreja em Sardes:

1 - "Sê vigilante e consolida". Com relação aos poucos que estavam para morrer, o recado é de ser vigilante, que significa estar alerta, abrir os olhos, deixar a flacidez e a indiferença espiritual. O verbo consolidar ("sterizo") indica estabelecer, firmar, fortalecer, exprime a necessidade de firmeza tanto no que tange à doutrina quanto à conduta. Não é o excesso de atividade eclesiástica que necessariamente conduz à firmeza em Cristo. Exercícios que solidificam a vida espiritual são o crescer no conhecimento da graça através da Palavra, da oração, da comunhão entre os irmãos no multiforme ministrar mútuo, através dos dons espirituais.

2 - "Lembra-te, pois, de como tens recebido e ouvido". O tempo do primeiro verbo é imperativo contínuo, que indica um constante relembrar-se do teor e principalmente da maneira como o evangelho fora transmitido à igreja em Sardes. Isso traz à mente as palavras de Paulo aos tessalonicenses:

"Porque o nosso Evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, mas sobretudo em poder, no Espírito Santo e em plena convicção, assim como sabeis ter sido o nosso procedimento entre vós, e por amor de vós." (1 Tessalonicenses 1 5).

Estes elementos que autenticam o verdadeiro Evangelho estavam sendo esquecidos na próspera e autoindulgente igreja em Sardes:

  • Poder - energia, força, disposição de lutar;
  • Espírito Santo – não palavras e teorias, mas o Espírito de Deus que vivifica, que enche de vigor e autoridade a sua igreja;
  • Plena convicção – hoje em dia parece ser moda a insegurança da parte de muitos pregadores expressa frequentemente pelas expressões: "talvez", "supõe-se", "tudo leva a crer", que indicam aparência de erudição e humildade. Há pessoas que se julgam donos da verdade e colocam na boca de Deus palavras que Ele jamais disse. Mas esta "incerteza constante" do talvez ou "acho", tem transformado a sã doutrina em "achologia". Sardes era provavelmente uma igreja sem posições bem claras e estabelecidas. Qualquer igreja assim corre o risco de inclinar-se ao impulso dos ventos dos modismos teológicos e pragmáticos que tanto se alteram e tanto dano trazem.
  • Procedimento coerente – não basta apenas crer no que é certo, é preciso viver de acordo. "Lembra-te, pois" destas coisas, diz o Senhor a Sardes.

3 - "Guarda-o e arrepende-te". A lembrança da maneira como a verdade de Deus havia chegado a Sardes devia constituir um tesouro, guardado com carinho, como exemplo e fundamento para o desenvolvimento da vida daquela Igreja. Por outro lado, devia também constituir um paradigma, um espelho diante do qual mirava-se regularmente, a fim de verificar se seguia os passos seguros dos evangelistas e apóstolos que a fundaram. Se isso for feito, afirma Cristo, a única reação cabível é o arrependimento ("metanoia"), que corresponde a mudança de mente ou direção, reconhecimento humilde de quanto se tem afastado do padrão original. O arrependimento não é um acontecimento único na vida cristã, reservado apenas ao evento da conversão a Cristo. Ele também é válido e necessário cada vez que nos desviamos do alvo e necessitamos de uma correção da rota. Todavia, o verbo arrepender-se, nesta passagem, está no imperativo aoristo, que exprime uma decisão definitiva de romper com os desvios e pecados em nossa vida.

"Quem encobre as suas transgressões, jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia" (Provérbios 28 13).

Este, em suma, é o recado de Cristo para Sardes, mas não para todos, porque no meio desta Igreja, chamada de "morta", Cristo percebia o remanescente fiel.


O Remanescente Fiel (versos 4 a 6)

1 – Um grupo destes era pequeno – "Tens (...) umas poucas pessoas", diz Cristo, "que não contaminaram as suas vestiduras". Este versículo nos faz compreender melhor o cerne do problema de Sardes: contaminação. O verbo grego é "molunō", que significa literalmente emporcalhar-se de lama, sujar-se de imundície, e no sentido figurado fazer concessões morais (adultério e fornicação) e espirituais (idolatria e feitiçaria).

Havia em Sardes, e graças a Deus por isso, um grupo que, apesar de pequeno, não vendera a sua alma ao diabo, nem comprometera a integridade do seu caráter por causa das pressões externas e internas e das próprias inclinações naturais.


2 - Uma grande recompensa se divide aqui em três bênçãos distintas.

2.1 - A primeira aparece no final do versículo 4: "andarão de branco junto comigo, pois são dignas". O simbolismo mais patente do branco é pureza. Isso indica que o pequeno rebanho era puro. Cristo também os chama dignos. Ora, todos nós sabemos quão impuros e indignos somos. Todavia, na riqueza de imagens do Apocalipse, "pureza e dignidade" são conferidas por Cristo. Ele é puro. Só Ele é digno. Assim, Ele empresta a nós aquilo que só a Ele pertence. Veja a esse respeito Apocalipse 5 2, 9 12 e confira com 7 14. O privilégio dos que estiverem revestidos de branco é andar com Cristo.

2.2 - A segunda promessa é de "não apagar o seu nome do Livro da Vida". Esta frase tem causado polêmica entre os estudiosos, argumentando alguns a possibilidade de se perder a salvação, e ter-se o nome apagado do Livro da Vida. Esta interpretação encontra muita resistência em face à extraordinária evidência bíblica da segurança dos salvos em Cristo. Na realidade, a sentença grega está no duplo negativo para efeito de ênfase, e expressa apoio inequívoco à segurança dos redimidos, podendo ser assim traduzida:

"Eu jamais, em tempo algum, apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de Meu Pai e diante de Seus anjos".

2.3 - Esta é a terceira promessa: "confessarei o seu nome diante de Meu Pai e diante dos Seus anjos", que apenas ratifica o que Cristo já havia prometido aos que O seguissem, e não se envergonhassem do Seu nome (Mateus 10 32 e Lucas 12 8). Não há margem de dúvida:

"AquEle que começou a boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus" (Filipenses 1 6).


Conclusão

Na realidade, a grande lição para Sardes, possa o Espírito aplicá-la também a nós, é esta:

  • Você pode ter o seu nome no rol de membros de uma Igreja e não o ter escrito no Livro da Vida.
  • Você pode ter cargos e atividades e ter o nome de que vive, e não ter o nome escrito no Livro da Vida.
  • Você pode ainda ter aparência externa de piedade, mas se o seu caráter não foi transformado, se seu coração, mente e consciência não foram lavados no Sangue do Cordeiro, então o seu nome não está escrito no Livro da Vida.

Há aqueles que são puros aos seus próprios olhos, mas jamais foram lavados da sua imundície. Estes têm nome de que vivem, mas estão mortos!


Soli Deo Gloria!!!


Fonte: Tudo Sob Controle, Guilherme Kerr Neto (adaptado).

06/09/26  IPB IV Centenário.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os Degraus do Crescimento Espiritual

A Arte de Falar e o Poder das Palavras

A Caverna de Elias