Carta à Igreja em Filadélfia - Uma Igreja Fiel
Apocalipse 3 7-13
O ABC de uma Igreja fiel
Filadélfia era a mais jovem das sete igrejas às quais o Senhor Jesus escreve. Fora fundada por colonos provenientes de Pérgamo, entre 160 e 140 a.C. Seu nome provém do grego filo, “amar”, e adelphos, “irmão”, ou seja, aquele que ama ao irmão. Realmente a cidade fazia jus ao seu nome, pois situava-se em região pacífica, exatamente na convergência dos limites das províncias asiáticas de Lídia, Frígia e Mísia e havia se tornado, pela sua própria topografia e geografia política, a porta de entrada para todo o platô asiático. Era considerada por esta mesma razão uma cidade missionária de cultura e idioma gregos e caminho natural para a penetração destes na Ásia.
Além disso, convém dizer que era cidade afligida por tremores de terra, fruto de erupções vulcânicas, especialmente a partir do ano 17 d.C., quando Sardes, Filadélfia e outras nove cidades circunvizinhas foram destruídas por forte terremoto. Isso trazia algumas vantagens: a terra vulcânica é excelente para a lavoura e altamente produtiva; mas também uma acentuada desvantagem: um viver desinstalado e inseguro; a qualquer momento poderia ser hora de fugir deixando para trás lavoura, casas, utensílios, etc... Pode-se perceber assim o peso das palavras de Jesus, no v. 12, ao vencedor (isto é, ao cristão) que “jamais sairá do Seu Santuário”, contrastando a precariedade desta vida com a permanência e estabilidade da vida que há de vir.
Quando Filadélfia foi parcialmente destruída, Tibério César, imperador de Roma, ajudou a reconstruí-la. Em homenagem a ele, a cidade mudou o nome para Nova Cesaréia. Mais tarde, quando subiu ao poder Vespasiano Flávio, o nome foi mudado novamente para Flávia. Estas mudanças de nome, em curto espaço de tempo, também se tornam propícias para facilitar a compreensão de outra significativa frase de Jesus ao final desta carta: “... gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém” (v. 12).
De todas as igrejas, Filadélfia é a que maiores elogios recebe do Senhor ressurreto. Circundada nos séculos seguintes por turcos e muçulmanos (tradicionais opositores do cristianismo), a igreja em Filadélfia permanece firme, até o dia de hoje. É muito interessante notar que, de todas as sete igrejas do Apocalipse, apenas duas mantiveram a firmeza e a fidelidade de testemunho nos séculos seguintes, coincidentemente as duas menos expressivas em tamanho ou força; as duas mais pobres: Esmirna e Filadélfia.
Ao examinarmos a carta de Jesus a esta igreja, conceda-nos o Espírito Santo iluminação para aprendermos qual foi o segredo do seu sucesso e permanência. Lança-se então a pergunta: Quais são os requisitos básicos de uma igreja bem sucedida? Há três informações seguras contidas no texto, que formam, por assim dizer, o ABC de uma igreja fiel. Dizem respeito a:
Autoridade de Cristo (vv. 7,8)
Benefícios da Fidelidade (vv. 9-11)
Conseqüências Eternas da Fidelidade (v. 12)
A – Autoridade de Cristo (vv. 7,8)
Para uma igreja pequena no meio de uma situação hostil, o fato básico a ser reconhecido é a autoridade do Senhor ressurreto, proveniente de Sua soberania sobre todas as coisas. Esta autoridade é expressa no início da carta, por meio de quatro traços do caráter e da obra de Cristo:
1 - “Santo.” Esta palavra indica basicamente um caráter totalmente íntegro, sem desvios, sem qualquer sombra de pecaminosidade e, por outro lado, uma vida totalmente consagrada a Deus, separada só para o Pai. É também uma expressão que revela a superioridade e majestade de Deus. Em Isaías 6, o profeta, em sua visão, contempla o Senhor, e é desafiado por Ele e Seus querubins no templo, que diziam: “Santo, Santo, Santo”. Tal visão leva o profeta ao reconhecimento de sua própria impureza diante da extrema retidão de Deus, e o levanta, purificado então pela brasa viva do altar de Deus, disposto a ir e proclamar a mensagem do Senhor. É esta reação que o termo “santo” deveria causar também a nós.2 - “Verdadeiro.” A expressão repete-se em Apocalipse 19.11 e indica uma conduta cheia de verdade, extremamente fiel, jamais vacilante, nunca alterada por paixões e arroubos de momento nem por explosões de ira ou mau humor. A verdade é o fundamento essencial para toda autoridade legítima. Veja a este respeito a conclusão do Sermão do Monte, em Mateus 7.27,28.
B – Benefícios da Fidelidade (vv. 9-11)
A palavra-chave neste trecho é guardaste, que no grego aparece no aoristo, exprimindo ação completa e terminada. Eles haviam guardado a palavra e o nome de Cristo. Cristo reconhece isto e deixa claro que está computando tudo (“conheço as tuas obras”) e as consequências são extremamente benéficas, a saber.
1. Exaltação diante dos inimigos (v. 9). Os inimigos aqui referidos eram judeus não convertidos, que Cristo denomina “sinagoga de Satanás”. Diante destes que assolavam e perseguiam a Igreja, Cristo haveria de exaltar os Seus servos. Ele diz: “... os farei vir e prostrar-se aos teus pés, e conhecer que eu te amei”. Os judeus se julgavam os únicos dignos do amor de Javé, o povo eleito, a nation escolhida; todavia, ao rejeitar o Messias e perseguir a igreja gentílica, tornam-se na realidade inimigos de Deus, “sinagoga de Satanás”, afastando-se deliberadamente do Seu amor. Que as lições da história nos poupem de cometer os mesmos erros. Que imenso privilégio e quão imerecido ver Deus levantar a nossa vida, e publicamente demonstrar o seu amor por nós, pela maneira que nos capacita e nos guarda, nos dá triunfo e paz no meio da perplexidade.
2. Livramento diante da provação (v. 10). Não para escapar à provação, mas para vencê-la. Muitos intérpretes da corrente dispensacionalista tomam este versículo para provar que a igreja fiel (entendendo, no caso, que Filadélfia simboliza a igreja na época da volta de Cristo) vai ser arrebatada imediatamente antes do período conhecido como “A Grande Tribulação”. Os que assim advogam estribam-se no uso da preposição grega ek, traduzida em português pela contração da, que indica literalmente “para fora de”; logo, insistem na interpretação de que Cristo vai tirar a igreja para fora da hora da provação que há de vir sobre todo o mundo. João, o apóstolo, usa a mesma palavra, ek, quando diz em Apocalipse 7.14: “São estes os que vêm da grande tribulação”, onde fica evidente pelo contexto que a expressão indica não escapar, antes passar por ela e sair. Em qualquer instância, todo o peso do ensino do Novo Testamento recai com muito mais força para o lado da fidelidade na provação, firmeza até a morte, do que para um escape triunfal e estratégico. Mas... este é um debate muito longo e foge um pouco ao escopo deste estudo. Para fins didáticos, o que importa do texto é que um dos benefícios da fidelidade é Deus nos guardar da tribulação: seja de uma maneira ou de outra, a Bíblia nos assegura o cuidado constante de Deus a favor dos Seus.
3. A coroa (v. 11). Simboliza tudo que alguém tem conquistado no decorrer de sua vida cristã: as mudanças no caráter e na conduta, a vida de fé e serviço, a evangelização, a adoração, as boas obras. Paulo, o apóstolo, costumava chamar os seus filhos espirituais de “alegria e coroa” (1 Ts 2.19,20). Esta coroa pode indicar tanto a recompensa presente de uma vida fiel a Deus como a expectativa futura de recompensa junto a Ele. E, se já começamos aqui a usufruir dos benefícios da fidelidade, quanto mais no porvir. Isso nos leva à terceira consideração.
C – Consequências Eternas da Fidelidade (v. 12)
A expectativa de que nosso viver e andar diários terão recompensas eternas inequívocas é o que a Bíblia chama de esperança. Esta esperança é retratada no texto por meio de quatro promessas que Jesus, “Aquele que não pode mentir”, nos faz:
1. Uma nova confiança. “... fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá”. Segurança absoluta, total certeza de habitar com e em Deus e de ser habitação do Espírito Santo. Esta confiança se inicia aqui, no primeiro passo da vida de fé (Jo 10.27-30), e se estende pela estrada que leva à eternidade.
2. Um novo caráter. “... gravarei também sobre ele o nome do meu Deus...” Quisera Deus nos dar a graça de entendermos as profundas implicações e o amplo significado destas palavras! Ah! se entendêssemos o que significa ser participante do caráter de Deus, ser chamado pelo seu nome, trazer marcas indeléveis da nossa filiação. Este caráter começa a se renovar aqui mesmo (2 Co 6.14-18) e se estende até aos... sem fim...
3. Uma nova cidadania. “... gravarei também sobre ele... o nome da cidade do meu Deus...” A realidade do céu, da nova Jerusalém é tão palpável como habitar em uma cidade. É mais real do que São Paulo ou Istambul ou Atenas. É realidade tão sólida que chega a ser imutável e permanente. Conhece-se a cidadania de alguém pelo seu sotaque. Também esta realidade se inicia aqui, quando somos adotados na família de Deus (Ef 2.18-20), e se estende pelos portões da nova Jerusalém, habitação final e permanente. Qual tem sido, a propósito, o seu sotaque? Já possui as marcas da cidadania celeste: veste de louvor, ao invés de espírito murmurador, adoração e reconhecimento, ao invés de blasfêmia?
4. Um novo conhecimento de Cristo. Dar-lhe-ei “o meu novo nome”. Pode parecer inacreditável mas o conhecimento que temos hoje de Cristo, por maior que seja, será ampliado, amplificado e expandido ao ponto de nós O conhecermos assim como Ele é (cf. 1 Co 13.12). Quem já possui o Seu nome aqui será carimbado para sempre com o novo nome do Senhor, como diz o cântico nº 164 do Hinário Novo Cântico:
“Levas tu contigo o Nome de Jesus, o Salvador!
Este Nome dá conforto hoje, sempre e onde for.
Nome bom, doce à fé, a esperança do porvir.”
Que estas verdades encontrem guarida em nossos corações!
Soli Deo Gloria!!!
Fonte: Tudo Sob Controle, Guilherme Kerr Neto (adaptado).
10/10/26 IPB IV Centenário.

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