Carta à Igreja em Laodiceia - Nem Frio, Nem Quente


 

Apocalipse 3 14 a 22


"Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da Minha boca. [...] Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, Comigo." Apocalipse 3 16 e 20.


Laodiceia, a sétima e última igreja a quem o Senhor ressurreto dirige uma palavra específica, neste final do terceiro capítulo do Apocalipse, sofria de uma doença crônica e terrível: mornidão espiritual, que talvez possamos também chamar de complacência ou falta de compromisso. Seja qual for o nome mais apropriado, a realidade sem dúvida é que, pelas palavras de Jesus nestes versículos, percebe-se claramente o grande perigo que representa a mornidão espiritual.

Laodiceia ficava ao sul da região da Frígia, ao leste de Éfeso, distando cerca de dezesseis quilômetros de Colossos. Alguns eruditos acreditam que a carta que hoje conhecemos como Epístola aos Efésios tenha sido, na realidade, uma carta circular enviada às cidades da Frígia, tendo Laodiceia como principal e primeira destinatária. Isso porque a expressão aos efésios não aparece nos melhores manuscritos e o próprio Paulo mencionou uma carta enviada a Laodiceia (Cl 1.7; 2.1; 4.12-16). O provável fundador desta igreja deve ter sido Epafras, companheiro de Paulo em suas viagens, mas isto é apenas conjectura, não se podendo asseverar categoricamente.

O que se pode dizer, e tristemente tem de ser dito, é que não se encontra nenhuma palavra de recomendação ou louvor a esta igreja. Filadélfia e Esmirna não receberam palavras de censura. As demais Cristo elogiou nos pontos positivos e censurou os desvios doutrinários ou comportamentais. Laodiceia não. Não há o que elogiar. Talvez fosse nossa tendência humana desprezar e deixar de lado uma igreja assim, tão indiferente. Mas, estranho quanto possa parecer, Cristo descarrega a repreensão mais severa ainda, no intuito de resgatar e demonstrar amor. “Eu repreendo e disciplino a quantos amo” (v. 19). Aqui neste versículo, mais uma vez o paradoxo do amor de Deus, a harmonia completa das Escrituras entre bondade e severidade, entre amor e disciplina.

A cidade fora fundada em 250 a.C. por Antíoco da Síria, e torna-ra-se, ao tempo em que João escreveu, um dos grandes centros comerciais e estratégicos do Oriente Médio.

Há quatro informações importantes sobre Laodiceia que nos trazem novas luzes na compreensão do texto bíblico:

  1. Era um grande centro bancário e comercial. Destruída em 61 a.C. por um terremoto, reconstruiu-se sozinha, sem auxílios externos. Isso nos ajuda a entender a frase: “Não preciso de coisa alguma”.

  2. A próspera indústria de tecidos, especialmente de lã aveludada de cor violeta escuro, extraída de ovelhas negras, tornava-se o orgulho da cidade pelas roupas que fabricava. Isso nos ajuda a entender a expressão de Cristo: “Nem sabes tu que és... nu”.

  3. Era um centro médico importante. Havia até uma escola de Medicina em Laodiceia, com médicos famosos, cujos rostos foram impressos nas moedas da época. Produziam nesta escola ungüentos para a cura de doenças dos ouvidos e dos olhos. Orgulhavam-se de seus colírios. Isso traz nova luz à frase: “Aconselho-te que de mim compres... colírio”.

  4. O primeiro pastor de Laodiceia foi provavelmente Arquipo, por volta de 60 d.C. (veja Cl 4.17). Trinta anos depois, a igreja está ao ponto de ser vomitada pelo Senhor. Que tipo de igreja tem produzido o nosso pastorado?

Há também três títulos usados por Cristo ao apresentar-Se a esta igreja:

  1. O Amém. Cristo é o sim e o amém de todas as promessas de Deus. Tudo que Laodiceia precisava estava em Cristo, mas ela não se deu conta porque confiava em suas próprias possibilidades, deixando assim de usufruir das possibilidades de Deus, em Cristo. (Veja 2 Co 1.20.)

  2. A testemunha fiel e verdadeira. Hebreus 1.3 nos diz que Cristo é a expressão exata do ser de Deus. Paulo nos diz que nele habita corporalmente toda a plenitude da deidade. Isso implica em autoridade extrema para avaliar, da mais justa e acurada maneira, a situação de Laodiceia.

  3. O princípio da criação de Deus. Aquele que deu origem a todas as coisas (Jo 1.1-3), o verbo de Deus. Nos versículos que seguem, Cristo faz uma análise da situação da igreja e lhe dá um recado franco e fulminante.

I – A Falsa Segurança (vv. 15-17a)

Era baseada, sem dúvida na sua atividade e auto-confiança.

  1. Atividade que se denota na palavra morno, ou seja, caminhando, fazendo o serviço de manutenção, mas sem nenhum zelo, nenhuma vibração.

  1. Auto-confiança que se demonstra naquilo que a igreja dizia de si mesma:
    a) “Estou rico...” Laodiceia era uma cidade rica, e a filosofia, o estilo de vida do rico, havia penetrado nas fileiras da igreja, qual seja: “Não há nada que o dinheiro não possa comprar”, ou ainda pior: “A riqueza é sinônimo da bênção de Deus”. Esta maneira de pensar é o princípio da queda e é um laço terrível (cf. 1 Tm 6.1-11).
    b) “Estou... abastado...” Abastança é a contraparte da riqueza material. Uma espécie de sentimento de auto-suficiência, soberba. Literalmente o termo indica: “eu mesmo adquiri o que tenho”.
    c) “... e não preciso de coisa alguma...” É difícil acreditar que uma igreja possa chegar a pensar assim, mas tudo indica que este era o caso de Laodiceia.

II – A Franqueza do Senhor (vv. 17b,18)

Cristo começa dizendo: “... nem sabes que tu és...” Os olhos da igreja estavam tão voltados para ela mesma, que nem sequer conseguia avaliar a miséria de sua própria situação. A igreja contentava-se consigo mesma, abastava-se e vivia para si mesma. Cristo é muito franco e declara à igreja a sua real situação.

  1. Infeliz. Literalmente, indica “em situação aflitiva, que deveria causar desespero interior e não regozijo”. Feliz é o rico que se sabe pobre e o pobre que se sabe rico, em Cristo.

  2. Miserável. Literalmente, “digno de dó, alvo da misericórdia”. Indica uma situação de extrema penúria e necessidade e, principalmente, o agudo contraste entre a avaliação de Cristo e aquela que eles faziam de si mesmos.

  3. Pobre. Por serem ricos, não precisavam sequer de subsídio do império para reconstruir a cidade, mas não tinham como se apresentar diante do Imperador do Universo, senão com mãos vazias, vidas sem fruto, nuvens sem água. Mornidão espiritual.

  4. Cego. Apesar dos colírios famosos produtos na cidade, eram incapazes de trazer luz ao coração entenebrecido pelo fascínio do poder, ofuscado pelo brilho do sucesso material; Cristo é categórico: a verdadeira condição era de cegueira.

  5. Nu. A despeito da fama da cidade e do seu próspero e afluente comércio de roupas, ela estava desprovida de vestimenta. Diante dAquele que desvenda mentes e corações, a igreja deveria sentir-se vexada.

III – A Fulminante Sugestão (vv. 18-21)

Cristo sugere três providências básicas à igreja: adquirir, arrepender-se e abrir.

  1. Adquirir. Há aqui uma suave ironia quando Cristo os manda adquirir aquilo que não se pode comprar, que não está à venda, que todo o dinheiro do mundo não paga. Há também uma nota didática, destinada a corrigir o erro e a distorção de uma igreja voltada para si mesma: “Aconselho-te que de mim compres...” Ele é a fonte de toda riqueza:
    a) Ouro refinado. A idéia é de contraste com a situação de mendicância e pobreza na qual a igreja de fato se encontrava.
    b) Vestiduras brancas. A nudez da igreja era, na realidade, a falta de vida verdadeiramente transformada por Cristo, que exibe um caráter íntegro e boas obras. Paulo elabora em Colossenses 3 a idéia de trocarmos de roupa, despindo-nos do velho homem e vestindo-nos do novo, que “se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10). O próprio livro de Apocalipse nos mostra que as vestes finas e brancas são os atos de justiça dos santos (19.8). Quanto necessitamos de pessoas novas, regeneradas em Cristo, para que a igreja tenha o impacto que deve causar sobre o mundo!
    c) Colírio. Sua finalidade é ungir os olhos, porque, segundo o diagnóstico de Cristo, aquela era uma igreja cega. R. C. Trench diz que “o princípio de toda verdadeira conversão é vermo-nos tal qual somos”. Às vezes, a riqueza material, o excesso de programas e atividades, que costumam causar uma falsa sensação de bem-estar ou de cumprimento do dever, tornam-se o próprio impedimento para nos enxergarmos como realmente somos.

  2. Arrepender-se. “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso, e arrepende-te.” A repreensão e a disciplina do Senhor têm por finalidade o arrependimento. Em última análise, é o amor que leva ao arrependimento, pois somente o verdadeiro amor repreende e disciplina. É moda nos nossos dias confundir amor com liberdade irrestrita, com ausência de limites e com um tratamento sempre frágil, complacente com o pecado. A Bíblia ensina de modo diferente: o verdadeiro amor repreende e disciplina, jamais condescende com o pecado, e mesmo assim não rejeita o pecador.

  3. Abrir. “Eis que estou à porta, e bato...”, continua a dizer Jesus. Por mais inacreditável que pareça, o texto nos diz que o Senhor da Igreja estava do lado de fora de Sua própria igreja e desejoso de entrar. Como nos tempos de Jesus, quando em confronto com os fariseus, há inúmeras vezes muito de religiosidade e pouquíssimo de vida, muito de cristandade e pouco de cristianismo, muito de atividade e pouco de Cristo. Que grande amor este do Senhor que nos convida a nos abrirmos – ainda é tempo – e cearmos com Ele, isto é, entrarmos na comunhão mais íntima, participando da Sua mesa, de todas as bênçãos espirituais que Ele tem reservado aos Seus amados. Muitos de nós temos orado por um avivamento bíblico e poderoso no Brasil e, indubitavelmente, Ele começará com a Igreja que Ele ama, mas que muitas vezes, por razões diversas, tem deixado de fora o próprio Senhor Jesus Cristo.

A carta a Laodiceia é um convite ao arrependimento, à autoanálise. Ela se encerra, apesar de tudo, com nota de triunfo: “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono...”, e daí o vidente de Patmos passa a contemplar a igreja não mais na terra, mas no Céu, a partir do capítulo quatro. As lutas, as heresias, as provocações, os judeus falsos, os perseguidores, tudo ficou para trás, e João vê o trono de Deus e de Cristo, o lugar central de todo o universo, a cadeira do comandante, o ponto de convergência de todas as coisas. Nada menos do que assentar-se neste trono e participar da regência de todo o universo é a tarefa que nos está guardada para a eternidade.

Mas para isso importa, aqui e agora, dar ouvidos ao que o Espírito diz às igrejas. Que o Senhor abra bem os nossos ouvidos. Amém.




Soli Deo Gloria!!!



Fonte: Tudo Sob Controle, Guilherme Kerr Neto (adaptado).

25/10/26 IPB IV Centenário.

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