Carta à Igreja em Tiatira - DaquEle que “sonda mentes e corações”



 Apocalipse 2 18 a 29

"[...] Todas as Igrejas conhecerão que Eu Sou aquEle que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras." Apocalipse 2 23b.


Curiosamente, a mais extensa de todas as cartas do Senhor às igrejas da Ásia é dirigida justamente à igreja da menor cidade, Tiatira, situada a cerca de 40 quilômetros a sudeste de Pérgamo, inexpressiva do ponto de vista político, econômico ou cultural, todavia conhecida pelo comércio, especificamente o comércio de púrpura, tecidos e roupas finas.

"Tiatira era também a cidade natal de Lídia, que foi uma das primeiras pessoas a se converter em Filipos e que, posteriormente, abriu sua casa para o início do núcleo que foi o embrião da igreja em Filipos. Lídia era vendedora de púrpura, produto de sua cidade de origem" (El Apocalipsis de Juan: Um comentario, p. 46).

Ladd (George Eldon Ladd, 1911–1982, “Apocalipse: Introdução e Comentário”, Edições Vida Nova), sugere que a organização comercial de Tiatira era tal que todos os que se dedicavam ao comércio de púrpura e tecidos reuniam-se em agremiações comerciais (quem sabe o germe dos atuais sindicatos de trabalhadores), que promoviam jantares e cerimônias onde se comia carne sacrificada a ídolos e que, não poucas vezes, terminavam em depravação e liberação dos apetites desenfreados. A pergunta que, portanto, se impunha era sobre a possibilidade de alguém ser cristão e ao mesmo tempo participar daqueles eventos. A resposta a esta pergunta – "até que ponto devo e posso envolver-me socialmente sem comprometer meu testemunho?" – gerou muita confusão, especialmente porque dentro da própria igreja havia pontos de vista conflitantes. Quem poderia esclarecer a questão? Qual dos partidos estava certo?

Esta carta foi escrita por Cristo em resposta a essas indagações. Por isso mesmo, as credenciais de Cristo ao se apresentar à Tiatira são de autoridade e divindade, de discernimento e austeridade: "Estas coisas diz o Filho de Deus". Esta é a única vez em que este título é utilizado em Apocalipse e designa, sem dúvida, a autoridade e a posição exaltada de Cristo, aquele que é o "resplendor da glória" de Deus "e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela Palavra do seu poder..." (Hb 1.3), "que tem os olhos como chama de fogo". Nesta última designação, a idéia é de perceber todas as coisas, perscrutar, provar e sondar profundamente. Seria como dizer: "Eu sei quem vocês são aos domingos, no culto público e na vida da igreja, e conheço bem sua segunda, terça, quarta-feira e todos os dias, e todas as obras e todos os pensamentos (cf. Sl 139).

"...e os pés semelhantes ao bronze polido". Bronze polido ou escovado é o bronze reluzente; a idéia é de ação, atividade, execução dos intentos, do guerreiro veloz, dAquele que vê e anda no meio do Seu povo, que recrimina, exorta e executa o juízo.

Tiatira nos apresenta um Cristo bem apocalíptico: os pés não são descritos como "furados pelos cravos do Calvário", mas a imagem do Apocalipse, que de maneira nenhuma contradiz a dos evangelhos, ao contrário a complementa, abre diante de nós a percepção de que Jesus é o Senhor dos céus e da terra, que tem direito sobre a vida e a morte, que veio como Cordeiro e voltará como Leão, que desceu aos abismos da humilhação, mas foi exaltado aos píncaros da mais alta glória. Louvado seja o seu Santo Nome!

Este Jesus, que discerne e julga, descreve em três aspectos a situação da igreja em Tiatira:

O Reconhecimento (v. 19)

Havia coisas muito positivas a recomendar quanto à comunidade de Tiatira, e Cristo as reconhece. Como sempre, Ele inicia com a frase: "Conheço as tuas obras...", e passa em seguida a enumerá-las:

  1. "... o teu amor". O agape, o amor sacrificial, que doa a sua vida em favor do irmão, este Tiatira possuía. Não se esquecera dele como fizera Éfeso, mas andava nEle.

  2. "... a tua fé..." A palavra grega pistis indica basicamente confiança. Neste caso, trata-se da confiança fundamental que é a fé para a salvação e a confiança paradoxal – que é a capacidade de ver a mão de Deus, ver o invisível e crer no que se espera, mesmo em meio a um mundo conturbado e confuso; é a fé para o dia-a-dia.

  3. "... o teu serviço..." A igreja que tem o amor agape, o genuíno amor de Deus, e a fé baseada no conhecimento de Deus e confiança nEle, em meio aos paradoxos da vida, irá sem dúvida manifestar estas duas virtudes em serviço: serviço a Deus e ao próximo. A palavra grega usada aqui é diakonia, que carrega também o sentido de ministrar, ou seja, a igreja deve ser uma comunidade ministradora – cada irmão, cada cristão como um ministro de Cristo. Esta doutrina básica da fé reformada, do sacerdócio universal de todos os cristãos, tem sido muitas vezes negligenciada, cabendo o serviço da igreja quase que exclusivamente aos chamados clérigos: pastores, diáconos e presbíteros. Não era isso o que acontecia em Tiatira, e Cristo a recomenda pelo serviço.

  1. "... a tua perseverança..." Quem vive em amor, como resultado da fé, é chamado a servir e não desanimar. Há muitos entraves na carreira cristã, por isso ela é chamada por Cristo de "caminho apertado que sai de uma porta estreita" (cf. Mt 7.14). É preciso haver perseverança, aprender a ficar embaixo das provações, caminhar sob tensões e pressões que sempre nos defrontam no combate com as trevas e com o sistema deste mundo.

  2. Progresso. Cristo, por fim, reconhece que apesar disso tudo a igreja em Tiatira ia em frente, progredia, suas "últimas obras" eram "mais numerosas do que as primeiras". Não havia o conformismo que tem caracterizado tantas igrejas. Havia um santo ímpeto para mais e para melhor.

Todas estas características fazem-nos ver Tiatira como uma igreja saudável e invejável. Algum tempo atrás, uma moça de nossa igreja comentou que havia passado perto de uma casa muito linda a alguns quarteirões da sua residência, e no terraço cheio de flores e sol vira uma senhora assentada numa cadeira confortável, sendo servida de chá por uma empregada doméstica. Pensou consigo mesma: "Que vida boa, tomara que um dia eu possa chegar lá". Alguns meses se passaram, e aquela moça foi informada do falecimento daquela senhora a quem ela tanto admirava e, também, a quem, já naquela época, quando a vira pela primeira vez, a doença fatal já prejudicava bastante. O que parecia sossego e conforto na realidade era sofrimento e luta contra um câncer fatídico.

Tiatira parecia tão sadia, mas o câncer já havia se instalado por culpa da sua própria frouxidão. Este câncer chamava-se Jezabel e nos leva ao segundo aspecto da palavra de Cristo:

A Repreensão (vv. 20-23)

"Tenho, porém, contra ti..." Com estas palavras, Cristo condena severamente a atitude de tolerância e compromisso com o erro que se insinuava no meio dos membros de Tiatira. Nesta época de flacidez espiritual, de ecumenismo barato e de falta de compromisso com a verdade é proveitoso notar que Cristo declara haver coisas que não podem ser toleradas dentro da igreja. No caso em questão, toleravam as atitudes e ensinos de uma mulher chamada Jezabel (o nome, sem dúvida, é intencional para mostrar o paralelo entre esta mulher e a outra conhecida no A.T., que se casou com Acabe, rei de Israel, e mandou matar os profetas do Senhor, passando a sustentar 850 profetas de Astarote, cujo templo foi construído em Samaria. Tornou-se conhecida por sua prostituição e feitiçaria (A história detalhada de Jezabel pode ser encontrada em 1 Reis 16, 18, 21 e 2 Reis 9.22). Destaquemos os traços principais desta Jezabel:

  1. Jezabel, esta mulher de Tiatira, é igualmente condenada por várias razões:

a) "... a si mesma se declara profetiza". Sem dúvida, esse versículo indica que o dom de profeta ou de profetizar deve ser, como todos os outros, uma dádiva do Espírito Santo, para edificação da igreja e que deve ser confirmado por benefício, harmonia e crescimento que causa na vida dos irmãos. Deus é quem declara alguém profeta e a igreja reconhece, concorda e usufrui deste ministério. Quem a si mesmo se declara profeta, em geral não o é!

b) "... não somente ensine". Provavelmente Jezabel ensinava de maneira informal a grupos nos lares ou através de uma rede de intrigas e seduções dentro da igreja. A condenação não parece estar vinculada ao fato de ela ensinar, mas, muito mais ao conteúdo do seu ensino, que era pernicioso.

c) "... seduza os meus servos" O ensino é sempre a base filosófica sobre a qual se alicerça a prática da Igreja. Em Tiatira, Jezabel ensinava e seduzia, isto é, instigava, convencia, induzia ao erro, no culto (comendo carnes sacrificadas aos ídolos) e na conduta (praticando a prostituição).

  1. Jezabel é advertida. Cristo afirma que lhe deu tempo para que se arrependesse, mas ela não quis. O tempo é ineficaz para gerar arrependimento quando não há um comprometimento da nossa vontade.

  2. Jezabel é refreada por Cristo em seu caminho de destruição, por dois fatos iminentes que realçam o rigor do juízo de Cristo:

a) Doença para Jezabel e seus aliados espirituais, seus companheiros de prostituição. Embora a doença não seja sempre sinal de juízo divino, sem dúvida, às vezes o é. (Veja 1 Co 11.30.)

b) Morte para os seus filhos. A referência deve ser aos filhos espirituais, que sofreriam morte física; "... e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mente e corações, e vos darei a cada um, segundo as vossas obras" (v. 23). Há muita gente nos nossos dias que não crê mais nesta declaração de Cristo; triste é o fim que de repente lhes sobrevirá. Aos demais, Cristo tem uma última palavra:

A Recompensa (vv. 24-29)

É interessante notar que havia duas igrejas dentro de uma só. A recompensa de Cristo restringe-se apenas àqueles que não tinham nenhum envolvimento com Jezabel, nem com aquilo que os jezabelitas chamavam "coisas profundas", isto é, eles se consideravam uma elite espiritual, o grupo dos iniciados que realmente conhecia a fundo as realidades espirituais. Só que as "profundidades" que eles conheciam não eram do oceano infinito da graça de Deus, senão do abismo negro das trevas de Satanás.

  1. À igreja fiel Cristo comanda: "... conservai o que tendes, até que eu venha" (v. 25). Já vimos anteriormente que eles tinham bastante êxito na dinâmica expectativa da fé, no amor, no serviço, na perseverança e no progresso; e a exortação era para que assim continuassem até a vinda do Senhor.

  2. À igreja fiel Cristo promete:

a) "Autoridade sobre as nações." Promessa a ser cumprida no estabelecimento do Reino de Cristo: os fiéis reinarão com Ele. (Veja 2 Tm 2.12 e Ap 19.15,16.) Quanto menor a escravidão ao pecado e à idolatria nesta vida, maior a liberdade e domínio na regência futura da história restaurada.

b) "A estrela da manhã." Muitas sugestões têm sido dadas a este respeito. Apocalipse 22.16 relata: "Cristo é a brilhante estrela da manhã". Não há maior galardão para o verdadeiro cristão do que o de conhecê-lO face a face, de mergulhar na luz da Sua presença e adorá-lO por Sua bondade. Paulo nos descreve que vemos a glória de Deus na face de Cristo. Quando voltamos as costas à vida escura de jezabelitas, às trevas do pecado e da idolatria, temos desde já estabelecida nossa entrada no Reino da Luz, a caminho do qual prosseguimos como nação santa, chamados "para proclamardes as virtudes dAquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (1 Pe 2.9).

Respondendo à questão sobre ser cristão e conformar-se aos padrões imorais e idólatras, a declaração de Cristo é por demais clara: uns herdarão as trevas – os iguais – outros herdarão a luz – os demais, os diferentes. De que lado você está?

E atente-se para: 

  • Um alerta Divino quanto ao perigo da infiltração de pessoas de pecado, aliciam e enganam os mais fracos causando grande dano à Igreja.

  • A falsa espiritualidade, a sedução das trevas, engana em encontra guarida no coração de pessoas desavisadas e descompromissadas com a Palavra de Deus. Mais vale conhecer as profundezas de Deus e Sua Palavra, a sublimidade de Seu eterno poder, glória e majestade.

  • Quão distante o carisma pode estar do caráter. Sem caráter carisma não vale nada, mas torna pernicioso e útil para o mal.



Soli Deo Gloria!!!


Fonte: Tudo Sob Controle, Guilherme Kerr Neto (adaptado). 30/08/26 IPB IV Centenário.

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