Carta à Igreja em Pérgamo – "Arrepende-te; e se não venho a ti"
"Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca." Apocalipse 2 16.
Se fosse possível fazer uma comparação de Éfeso e Esmirna com o mundo contemporâneo, talvez pudéssemos dizer que Éfeso seria uma Nova Iorque ou uma São Francisco (nos EUA) ou uma Rio de Janeiro, cidade dos prazeres e da libertinagem moral. Esmirna seria uma cidade como Chicago ou São Paulo, sede do poder econômico (embora como vimos bem, e convém lembrar, a igreja em Esmirna fosse extremamente pobre).
Pérgamo, por sua vez, seria Washington ou Brasília, o centro do poder político, além de ser profundamente religiosa, sendo sede de muitos cultos e devoções, como os exemplos seguintes informam:
a) Pérgamo era devota a zeus e a atena, cujos templos se erguiam suntuosos no ponto mais alto da cidade, numa acrópole de cerca de 250m de altura.
b) Pérgamo era devota a Roma. Em 29 a.C. foi construído ali um templo ao "divino Augustus e à deusa Roma"; por esta mesma razão era cidade politicamente favorecida pelo Império e tornou-se o centro do poder político e capital da província da Ásia.
c) Pérgamo era devota a esculápio, a serpente dourada que simbolizava a saúde (até hoje usada como símbolo da medicina) e cujos curandeiros se tornaram mundialmente famosos na época. Havia um templo dedicado a Esculápio, o Deus-curador, magnificamente construído e cujas ruínas permanecem até hoje. O culto a Esculápio envolvia uma mistura de medicina, curandeirismo e magia.
d) Pérgamo era devota à cultura, competindo a nível mundial pela proeminência cultural. Era famosa por sua biblioteca, inferior apenas à de Alexandria no Egito, e por causa do tratamento do couro de animais usado na fabricação de livros; teve seu nome perpetuado na expressão "pergaminhos", que são os rolos de couro curtido especialmente para escrita, que tiveram sua origem em Pérgamo.
Posto isso, tornou-se fácil para nós entendermos a expressão inicial de Jesus: "Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de satanás..." (Apocalipse 2 13). Este trono de Satanás pode ser um, alguns ou todos aqueles cultos aos quais Pérgamo era devota. De qualquer maneira, em cada um deles podemos perceber claramente influências satânicas, e por trás de cada culto idólatra o que realmente acontece é uma adoração a demônios. (Veja a este respeito 1ª Coríntios 10 19 e 20.)
Vemos também aqui uma seqüência, muito bem lembrada pelo Rev. Stott (What Christ Thinks of the Church, p. 51), do conhecimento profundo que Cristo tem de Suas igrejas porque Ele anda no meio delas. Ele conhece as obras do Seu povo (como diz a Éfeso), as suas tribulações (segundo afirma a Esmirna) e o lugar onde ele habita (agora a Pérgamo). Isto evidencia que Cristo não está alheio ao fato de que Sua Igreja vive no meio de um mundo hostil e muitas vezes sob fortes pressões religiosas, culturais e políticas para se amoldar aos costumes prevalecentes.
É neste contexto que Cristo é apresentado como "Aquele que tem a espada afiada de dois gumes" que sai da Sua boca, a Sua Palavra, palavra de consolo que cura e restaura, mas ao mesmo tempo palavra que discerne, aponta e traz à luz o erro (Apocalipse 2 16). Esta palavra de Cristo ostenta quatro aspectos principais ao se dirigir a Pérgamo:
I. Uma palavra de aprovação (Apocalipse 2 13)
Há duas expressões que indicam a aprovação da fidelidade dessa igreja:
1. "Conservas o meu nome". No meio de tanta idolatria e paganismo, o simples fato de conservar o nome de Cristo é realçado pelo Senhor em sinal de aprovação sincera. "Conservar o nome" indica andar de acordo com os preceitos de Cristo. O nome é o caráter, a própria pessoa; conservá-lo implica em familiaridade com o caráter e a pessoa de Cristo, estar em posição firme e inarredável ao lado de Cristo e de Sua Palavra; significa muitas vezes aprender a tomar posição sozinho, ou ser olhado de lado, como se fosse um tipo exótico em extinção.
Alguns pregam que devemos esquecer nossas diferenças doutrinárias e afogá-las no mar do amor fraternal, ou seja: "Esqueça a verdade, o que importa é o amor". Cristo jamais disse isto, nunca agiu assim, em tempo algum ensinou seus discípulos a fazerem o mesmo. O amor é primordial (já vimos isto na carta à Éfeso), a verdade também o é. (Este é o outro lado da mesma moeda, realçado aqui!)
2. "Não negaste a minha fé". O tempo do verbo indica uma situação definida no passado, com toda probabilidade referindo-se à morte de Antipas, fiel testemunha, em quem a fé (isto é, confiança inarredável, entrega da vida e dos cuidados a Cristo) foi colocada à prova por oposição, até à morte. A palavra "testemunha" nesse contexto também poderia ser traduzida por "mártir", denotando que a seriedade de um compromisso com Cristo envolve completamente a nossa vida, ao ponto de chegarmos mesmo à entrega da própria vida por amor a Ele. Isso evidencia também o requisito imprescindível de acrescentar "ao nome" de Cristo a confiança, "a fé", a entrega voluntária. Ser cristão não é apenas possuir um certo rótulo, é muito mais. É comprometer vida, saúde, recursos e talentos ao serviço do Senhor. Jim Elliot, missionário entre os índios aucas, nas selvas do Equador, costumava — antes de sua morte aparentemente prematura pelas flechas envenenadas dos selvagens — dizer que:
"Não é tolo aquele que dá o que não pode guardar, para ganhar aquilo que não pode perder".
Quem pode guardar a sua vida para si? Ninguém. Elliot a entregou voluntariamente para ganhar a vida eterna, que jamais lhe será tirada. Sua esposa, Elisabeth, estava grávida quando o marido foi morto pelos índios. Você pensa que ela desistiu de levar o evangelho àquela tribo? Ao contrário, comprometeu-se ainda mais, voltou em outra expedição e teve a graça de ver os assassinos de seu marido renderem-se a Jesus, terem suas vidas transformadas, seus pecados perdoados e tributarem a ela e a sua filhinha o amor que receberam. "... não negaste a minha fé..." Cristo aprova e elogia este tipo de atitude. Um outro aspecto da carta do Senhor a esta igreja é que ela também se constitui em:
II. Uma palavra de advertência (Apocalipse 2 14 e 15)
"Tenho, todavia, contra ti algumas coisas". A aprovação dá lugar à advertência. É interessante observar que somente nos dias de hoje os psicólogos tenham sistematizado e exposto, depois de muitos estudos experimentais, que a saúde mental e psicossocial do ser humano está intimamente relacionada a sua criação e aos primeiros anos de sua infância e que duas coisas são básicas nestes anos formativos: disciplina e amor. Limites e incentivos. Cristo ama a Sua Igreja e, para vê-la equilibrada e gozando de saúde espiritual, concede, depois da palavra de apoio e aprovação, uma palavra séria de advertência:
1. "Tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão". A história do profeta Balaão encontra-se em Números 22 a 24 e está muito bem resumida neste versículo de Apocalipse. Em suma, Balaão, impossibilitado pelo Senhor de amaldiçoar com palavras Israel, sugere a Balaque que moças moabitas devessem convidar os moços de Israel a participar de suas festas com elas, festas de idolatria, onde se praticava toda sorte de imoralidade sexual. Este tipo de solução teria mais efeito e traria mais maldição sobre Israel do que a maldição por palavras. Embora esse fato se refira a um incidente do Antigo Testamento, o Senhor o usa para ilustrar vividamente o tipo de conduta que algumas pessoas, note bem, dentro da igreja, estavam adotando: prostituição espiritual que leva à prostituição física. Aqui estão juntas as duas grandes inimigas da Igreja de Cristo: flacidez doutrinária e frouxidão moral. Uma conduz à outra e vice-versa. Quais são os ídolos aos quais nos prostramos hoje? O materialismo, a cultura, o consumismo e tantos mais que podem se tornar pedra de tropeço na caminhada cristã, mas especialmente a falta de convicções doutrinárias sólidas, para não abrirmos mão daquilo que é fundamental e não obscurecer o nosso testemunho.
Quais são as tentações morais? As mesmas daquela época. Para o homem de negócios: a facilidade do sigilo nos hotéis, a ausência da esposa, o anonimato, o passar sem ser reconhecido. Para a dona-de-casa: as sugestões da vizinha, da televisão, da revista liberada para que se aproveite a vida. Para o jovem (até nas nossas igrejas) a tentação continua sendo o círculo de amizades, a literatura, a propaganda maciça a favor do sexo livre, a facilidade dos motéis, as amigas e amigos mais avançados. Ah, quantos há, que, dizendo-se carentes de carinho e afeição, cedem ao universo horroroso da escravidão e do desamor que se esconde atrás de cada entrega à prostituição.
2. "Também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas." A maioria dos comentaristas é unânime em afirmar que o erro de Balaão e dos nicolaítas era o mesmo. A solução do Antigo Testamento repete-se no Novo com outra personagem. Alguns especulam que este Nicolau seria o mesmo diácono escolhido pela Igreja em Atos 6, e que posteriormente teria apostatado e promovia discórdias e ensinos morais repreensíveis no seio das igrejas. A realidade quanto à identidade deste Nicolau, todavia, não nos é revelada. Uma coisa, entretanto, é segura: o grupo era séria ameaça para a vida da igreja. Na carta à Éfeso, Cristo diz (Ap 2.6) que odeia as obras dos nicolaítas. Esta deve ser também a atitude da Igreja de Cristo em casos de descomprometimento moral dos seus membros: confronto e, não havendo arrependimento, disciplina. (Veja as palavras de Cristo em Mateus 18 15 a 20.) A igreja que põe panos quentes sobre as obras das trevas recebe de Cristo justamente:
III. Uma palavra de admoestação (Apocalipse 2 16)
"Portanto, arrepende-te". Ainda que a vida irregular, a idolatria e a prostituição fossem características apenas de um grupo distinto dentro da igreja, a admoestação ao arrependimento se dirige à igreja toda. Isso se entende quando enxergamos a Igreja à luz dos ensinos do Novo Testamento como corpo, edifício e lavoura, ideias que realçam o caráter corporativo da Igreja. Quando um membro sofre, todos sofrem; quando um membro é honrado, todos se alegram com ele (1ª Coríntios 12 26); quando o Senhor da Igreja repreende, a admoestação é dirigida a todo o grupo.
"Se não, venho a ti". Ou seja, vocês são co-responsáveis na medida em que agasalham no seu meio os baalamitas e os nicolaítas. Embora a admoestação seja geral, a punição é bem específica: "... contra eles pelejarei com a espada da minha boca". A espada é a Palavra, que salva e cura, fere e julga:
"Se alguém ouvir as Minhas Palavras, e não as guardar, Eu não o julgo; porque Eu não vim para julgar o mundo, e, sim, para salvá-lo. Quem Me rejeita e não recebe as Minhas Palavras tem Quem o julgue: a própria Palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia". (João 12 47 e 48).
Esta é a punição que aguarda os nicolaítas: defrontarem suas vidas, voluntária e obstinadamente desviadas, com a Palavra eterna do Deus eterno, que chama Sua Igreja ao arrependimento.
IV. Uma palavra alternativa (Apocalipse 2 17)
"Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." Diante das demandas claras de arrependimento, Cristo encerra esta carta em tom positivo, na expectativa de que alguns irmãos iriam vencer a grande batalha da vida cristã, mesmo num contexto tão adverso como o de Pérgamo, "onde satanás habitava". E a alternativa para quem vencer é de uma recompensa preciosa e desejável, a saber: "o maná escondido" — sem dúvida, o maná que era guardado como memorial dentro da Arca do Senhor, no Antigo Testamento (Êxodo 16 32 a 34) e que prefigurava o maná permanente, o Pão da Vida, que desce do Céu e dá vida aos homens (João 6 31 a 35, 48 a 51), do qual já desfrutamos desde agora mas desfrutaremos plenamente no Céu.
"Uma pedrinha branca" com "um nome novo". Aqui a interpretação já é mais discutível. Alguns sugerem que esta pedra é como a que era dada aos convidados como admissão a festas importantes, outros sugerem que simboliza a absolvição do juiz, outros ainda propõem que simboliza a conferência de funções sacerdotais plenas ao povo de Deus. De qualquer forma, esta pedra tem um nome novo, indicando caráter novo, vida totalmente nova, "santa, inculpável e irrepreensível" (Colossenses 1 22), livre das doutrinas nocivas, da conduta repreensível dos nicolaítas. Que estas palavras encontrem abrigo em nossos corações!
Soli Deo Gloria!!!
Fonte: Tudo Sob Controle, Guilherme Kerr Neto (adaptado).
09/08/26 IPB IV Centenário.

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