Carta à Igreja em Esmirna: "Tu és Rico"



"Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida." Apocalipse 2 10.


Quatro versículos curtos abrem a visão para as possibilidades de uma igreja como Esmirna, que sendo pobre evidencia sua riqueza em graça, perseverança e virtude, aos olhos do Senhor.

Como nas demais cartas, esta também se inicia com declarações do autor. "Estas cousas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver". O título escolhido para Jesus Cristo aqui é o mesmo que se refere ao Pai, em Apocalipse 1 8, e depois ao próprio Cristo, em 1 17, sendo repetido por ser de especial significado para a igreja em Esmirna.

"O primeiro e o último", ao meu parecer, não se refere apenas à eternidade de Cristo e da Sua justa proeminência sobre todas as coisas, mas também é um título de consolo, que, no caso em questão, serve para animar os amados irmãos a não esmorecerem na jornada como se ela não tivesse fim, ou como se não tivesse sentido.

Muitas pessoas crêem em Deus como "o primeiro". Até aqueles que não crêem em um Deus pessoal e amoroso, muitas vezes acreditam numa força superior, ou numa "causa não causada", um deus que é uma espécie de pontapé inicial, como se Ele houvesse dado corda em um relógio ou colocado a girar o universo, o qual a partir de então seguiu o seu próprio rumo, sem precisar mais de nenhum acerto ou interferência. Como se Deus já houvesse feito a parte dEle e nos restasse agora fazer a nossa. Quando cremos num Deus assim, não temos nenhuma alternativa, nem consolo nas provações: estamos agindo por nossa conta.

O Deus revelado em Jesus Cristo difere muito desta concepção dos deístas modernos: Ele é o primeiro mas é também o último. Ele começou a história pela Palavra do Seu poder e Se responsabiliza por encerrá-la pela consumação do Seu reino. Ele é o princípio e o fim, e mais ainda, Ele é o meio, o caminho, o Deus sempre presente que altera os rumos da história em favor dos Seus amados: nas densas trevas da provação, por vezes esquecemos que o futuro está nas mãos do Senhor e que não estamos sozinhos nem abandonados. Esmirna precisava dessa palavra. A fim de entendermos um pouco mais a fundo a situação dessa igreja, examinemos três componentes de interesse nesta carta.


A Cidade Próspera

Começaremos com a própria cidade de Esmirna. Situava-se a cinqüenta quilômetros ao norte de Éfeso e rivalizava com ela por ser a cidade de maior destaque na Ásia. Era chamada a Flor da Ásia, a coroa da Ásia, o orgulho da Ásia. Cidade portuária do Mediterrâneo, aos pés dos Montes Pagos, Esmirna era conhecida, e ainda é, como uma das mais prósperas cidades da Ásia Menor. Fiel a Roma mesmo antes de esta ser dona do mundo, Esmirna construiu um templo para culto ao Imperador Tibério, em 26 a.C., quando todas as grandes cidades da Ásia disputavam entre si este privilégio.

Foi fundada em 1000 a.C. e destruída totalmente pelos lídios quatrocentos anos depois, em 600 a.C. Passou outros quatrocentos anos em ruínas e em 200 a.C. foi reconstruída por Lisímaco, que elaborou para ela um projeto completo de urbanização. Podemos compreender assim o efeito que causavam aos irmãos de Esmirna as palavras do Cristo ressurreto: "... esteve morto e tornou a viver" (v. 8), pois a própria cidade havia estado morta e revivera. São lições preciosas da história: há derrotas que vêm para fortalecer, encher de ânimo para recomeçar e reconstruir. Historiadores também nos ensinam que havia em Esmirna uma colônia de judeus muito grande e muito influente. Certa vez contribuíram com dez mil denários (equivalentes a trinta anos de salário de um trabalhador comum) apenas para o embelezamento da cidade. Por causa de sua riqueza, tornaram-se ligados ao grupo que detinha o poder político da cidade através do tráfico de influências e, por odiarem os cristãos, acabaram causando muitas perturbações à igreja em Esmirna. No meio de uma cidade rica, uma igreja... bem, isso já nos leva ao segundo componente de interesse na carta.


O Contexto de Perseguição (da Igreja)

"Conheço a tua tribulação..." (v. 9). Cristo aparece aqui novamente, dizendo: "Conheço". Ele sabia dos detalhes da vida daquela igreja. Nós, porém, não sabemos; a história nos fornece poucos dados. O Novo Testamento não relata quando ela foi fundada nem por quem. Contudo, o importante é que Cristo a conhece. Este é um selo, um fundamento de Deus acerca dos que são Seus: “O Senhor conhece os que Lhe pertencem” (2 Timóteo 2 19a). Nada do que nos acontece passa desapercebido aos olhos dEle, sem que seja filtrado por Seu amor e sabedoria.

Há quatro pontos conhecidos por Cristo, que retratam o contexto de perseguição em que vivia a igreja de Esmirna:

1 - Tribulação. A palavra indica "estar debaixo de peso ou pressão". Sem dúvida, a pressão era da parte dos religiosos que exigiam o culto ao imperador, insuflados pelos judeus que odiavam o Nazareno e haviam se tornado, como diz o livro de 1 Tessalonicenses 2 15 e 16, "adversários de todos os homens, ao ponto de nos impedirem de falar aos gentios para que estes sejam salvos".

2 - Pobreza. Há basicamente duas palavras gregas no Novo Testamento que são traduzidas como pobreza. Uma delas é penia, que indica "falta do supérfluo, ou seja, uma relativa pobreza que permite a sobrevivência apenas com o necessário e o suficiente. A outra palavra, que é a usada neste versículo, é ptocheia, que indica "falta do essencial", "extrema carência", "indigência", "mendicância". Esta expressão leva-nos a entender que os irmãos de Esmirna vinham das camadas mais baixas da população, e talvez muitos escravos, desprezados e marginalizados pertencessem àquela igreja. Ela seria hoje equivalente a uma igreja não da periferia mas, praticamente da favela. É muito interessante pensar que Éfeso, igreja rica e próspera, perdeu o seu privilégio e desapareceu do mapa – igreja e cidade juntas. Esmirna é, ainda hoje, cidade importante e o testemunho cristão tem sido preservado ali, apesar das muitas lutas, através dos séculos. Pense na sua igreja. Onde estará ela na próxima geração?

3 - Blasfêmia. O termo é exatamente igual no grego, e no contexto refere-se a "acusações injuriosas", "calúnias", mentiras mal intencionadas para prejudicar a vida dos cristãos. A fonte turva destas acusações era a mente maldosa e o coração pervertido "dos que a si mesmos se declaram judeus, e não são, sendo antes sinagoga de Satanás". Palavras duras do próprio Cristo asseverando que o verdadeiro judeu não é o que se considera judeu apenas cultural, etnológica ou mesmo religiosamente. Não é uma raça apenas; o verdadeiro judeu (mesmo não sendo cristão) é o que leva a sério os preceitos morais, éticos e religiosos do Antigo Testamento, que teme ao único Deus verdadeiro, respeita os homens e exercita misericórdia, ao invés de cultos ritualistas vazios.

Os judeus falsificados são estes, apenas de raça, língua ou religião, os quais Javé chama de Sodoma e Gomorra, em Isaías 1; e Jesus, de sinagoga de Satanás, neste texto que estamos estudando, judeus que proferem blasfêmias e acusações contra os cristãos, estes sim verdadeiros filhos de Abraão (Gálatas 3 28 e 29).

Na realidade, a verdadeira luta transcende as barreiras nacionalistas; é uma luta entre Cristo, o Senhor, e Satanás, que envolve tanto judeus quanto gentios, na tentativa de impedir a expansão do Reino de Deus. Seus intuitos, todavia, não terão sucesso, pois: "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" (Romanos 8 31). Cristo consola os cristãos de Esmirna e de todas as épocas com palavras tão características dEle: "Não temas as coisas que tens de sofrer". Cabe aqui lembrar que cada um de nós tem o privilégio de participar, ao lado do Senhor vitorioso, da parte que nos cabe de sofrimento em favor do Reino de Cristo (Filipenses 1 2a).

Isso nos leva à quarta palavra-chave do nosso texto:

4 - Sofrimento. O verbo usado é paschō, de onde provém a palavra Páscoa, e indica "participar da dor" física, moral ou espiritual que envolve seguir a Cristo. A igreja em Esmirna tinha diante de si dois tipos de sofrimento específicos e muito reais: a prisão (de alguns por certo tempo) e a morte como possibilidade real, permanente, para eles. Estou pessoalmente convencido de que este é um ponto cego na nossa proclamação do evangelho de Cristo. Nós, cristãos ocidentais, que vivemos em países onde há liberdade de culto e reunião, tendemos a oferecer as bênçãos de Cristo, como paz, amor, salvação, vida eterna, sem anunciar igualmente as demandas como sofrimento, abnegação, sacrifício e muitas lutas. O cristianismo sem sacrifício, sem sofrimento, sem cruz, é ineficaz e ilusório, uma espécie de ópio que entorpece mas não prepara. A igreja em Esmirna encarou como privilégio a possibilidade de sofrer por Cristo. Cristo faz, assim, apenas um comentário sobre a igreja, no sentido de avaliá-la, muito curto, mas extremamente importante e profundo.


O Comentário Penetrante (de Cristo)

"... mas tu és rico" (Apocalipse 2 9). Ah, quem dera você e eu ouvíssemos estas palavras do Rei, no dia em que Ele julgar os intentos do coração. O que nos faz ricos aos olhos de Deus é a nossa identificação com Cristo.

1 - Ricos na ousadia do Senhor. É isto que fica subentendido pela expressão: "Não temas". Só é possível experimentar vitória na adversidade e passar de cabeça erguida pela tribulação ou pelo vale da sombra e da morte se o Senhor estiver conosco (Salmos 23 4).

2 - Ricos na fidelidade ao Senhor. A ordem: "Sê fiel até à morte..." (Apocalipse 2 10) implica que eles já estavam sendo fiéis em vida. Fiel significa, neste sentido, ser digno de confiança, ser alguém persuadido, convencido, vendido a um compromisso com Deus que transcende as dificuldades e tempestades desta vida transitória. São pessoas assim, Paulo diz a Timóteo, que devem ser o alvo do nosso ensino, a ênfase do nosso discipulado; são estas que irão levar adiante a fé (2ª Timóteo 2 2). Como carecemos hoje de homens fiéis (gr. pistos), comprometidos, entregues de coração e alma ao grande projeto de expansão do Reino de Deus.

3 - Ricos na recompensa de Deus "... dar-te-ei a coroa da vida" (Apocalipse 2 10). Esta recompensa é prometida àqueles que forem fiéis naquilo que têm, mesmo que seja pouco. Uma das causas terríveis da imobilidade na Igreja do Senhor é a murmuração por aquilo que não temos: "Ah, se eu tivesse aquele dom...", "Ah, se o pastor fosse fulano e não esse infeliz..."

Estamos sempre "trabalhando" com aquilo que não temos. Esmirna era uma igreja pobre, mas recebeu a promessa da coroa da vida pela sua fidelidade no uso daquilo que tinha.

Algumas décadas após ter sido escrito o Apocalipse, era bispo da igreja em Esmirna um santo homem de Deus, chamado Policarpo. Sua morte como mártir ilustra bem este ponto:

Era 22 de fevereiro de 156. O velho bispo, conclamado a negar Cristo e adorar o César em troca de sua liberdade, responde: "Oitenta e seis anos faz que eu O tenho servido, e Ele jamais me faltou; como posso eu blasfemar contra o Rei que me salvou?" O procônsul romano persistiu: "Jure pelo gênio de César... Tenho feras selvagens; se não mudares de idéia, serás atirado a elas..." "Que sejam trazidas", replicou Policarpo. "Se desprezas as feras, a não ser que mudes de idéia, queimá-lo-ei vivo." Enfurecidos, judeus e gentios arremeteram contra ele munidos de madeira, a fim de queimá-lo numa fogueira. Policarpo disse que não precisavam amarrá-lo ao poste, e em pé, ao lado dos seus opressores, orou: "Ó Senhor, Deus Todo-poderoso, Pai de Teu amado Filho, Jesus Cristo, através de quem recebemos o conhecimento de Ti... eu Te agradeço porque me consideraste digno, neste dia e hora, de partilhar do cálice do Teu Cristo, entre o número das Tuas testemunhas". Atearam o fogo, mas como o vento prolongasse a agonia de Policarpo, a espada de um soldado encurtou seus sofrimentos. Ele ouvira bem as palavras do seu Senhor: "Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida". Policarpo conheceu a primeira morte; a segunda (o castigo eterno) ele jamais conhecerá, porque passou da morte para a vida. (Stott, John R. W., What Christ Thinks of the Church. InterVarsity Press, 1972, pp. 40,41.)

Seu testemunho eloquente é a prova cabal do tipo de gente que o evangelho, mesmo em meio a pobreza e perseguição, pode produzir.

"Tu és rico!" E você, meu irmão? O que diria o Senhor a seu respeito?

Possa o Senhor encontrar em nós as marcas que conduzem à vida, as marcas de Cristo no nosso caráter. Amém!



Soli Deo Gloria!!! Fonte: Tudo Sob Controle, Guilherme Kerr Neto (adaptado).

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