A Perspectiva Escatológica do Velho Testamento
Para entendermos corretamente a escatologia bíblica, precisamos vê-la como um dos aspectos integrantes de toda a revelação bíblica. A escatologia não deve ser vista como algo encontrado apenas em livros tais como Daniel e Apocalipse, mas como dominando e permeando toda a mensagem da Bíblia. Neste ponto, Jürgen Moltmann está totalmente correto: "Do começo ao fim, e não apenas no epílogo, o Cristianismo é escatologia, é esperança, olhar e andar para a frente e, por causa disso, também, é revolucionar e transformar o presente. O escatológico não é um dos elementos da Cristandade, mas é o agente da fé cristã em si, a chave à qual tudo está ajustado... Por isso, escatologia não pode realmente ser apenas uma parte da doutrina cristã. Antes, a perspectiva escatológica é característica de toda a proclamação cristã, de cada existência cristã e de toda a Igreja"
Para entendermos este tópico, passemos a apreciar mais de perto a natureza escatológica da mensagem bíblica como um todo. Neste Capítulo, queremos considerar a perspectiva escatológica do Velho Testamento; no capítulo seguinte estaremos nos ocupando da visão escatológica do Novo Testamento.
Freqüentemente tem sido dito, por teólogos situados na tradição liberal, que há muito pouca escatologia no Velho Testamento. Devemos concordar, naturalmente, em que os escritores do Velho Testamento não nos fornecem ensinamentos claros a respeito das doutrinas a que chamamos de "Escatologia Futura": vida pós-morte, Segunda Vinda de Cristo, juízo final e assim por diante. Mas há um outro sentido, segundo o qual o Velho Testamento está orientado escatologicamente do princípio ao fim. George Ladd o descreve da seguinte forma:
Conclui-se que a esperança de Israel, pelo Reino de Deus, é uma esperança escatológica, e esta escatologia é a consequência inevitável da visão que Israel tem de Deus. O antigo criticismo Wellhauseniano insistia em que escatologia era um desenvolvimento tardio que veio a emergir somente na época pós-exílica. Recentemente, o pêndulo tem-se inclinado para outra direção e o caráter fundamental da escatologia israelita tem sido reconhecido. Pode-se citar um número cada vez maior de eruditos que reconhecem que foi o conceito de Deus, ocupando-se com Israel na história redentiva, a causa do surgimento da esperança escato lógica.
Um dos mais recentes eruditos citados por Ladd é T.C. Vriezen, professor de Estudos do Velho Testamento da Universidade de Utrecht. Vriezen comenta que a visão escatológica encontrada no Velho Testamento é "um fenômeno israelita que não tem sido encontrado fora de Israel" Ele continua:
A escatologia não surgiu quando o povo começou a duvidar da veracidade do reinado de Deus no culto, mas sim quando eles tiveram de aprender, em meio a grande sofrimento, a confiar em Deus, pela fé somente, como o único fundamento firme da vida, e quando esse realismo da fé esteve dirigido criticamente contra a vida do povo, de modo que a catástrofe iminente era considerada como uma intervenção divina plenamente justa e, ainda, de modo a ser confessado que o Deus Santo permanecia inabalado em Sua fidelidade e amor a Israel. Dessa maneira, a vida de Israel na história passou a ter um aspecto duplo: por um lado, o juízo era considerado como próximo, tangível, e a re-criação da comunidade de Deus como algo que se avizinhava. Escatologia é uma certeza religiosa que emana diretamente da fé israelita em Deus, conforme enraizado na história de sua salvação.
Por causa disso, Vriezen considera a escatologia como essencial à mensagem tanto do Velho como do Novo Testamento: "No coração da mensagem do Velho Testamento está a expectação do Reino de Deus, e em Jesus de Nazaré está o cumprimento inicial dessa expectação... isso subjaz à mensagem do Novo Testamento. O verdadeiro cerne de ambos, Velho Testamento e Novo Testamento, é, portanto, a perspectiva escatológica.
Passemos a examinar a perspectiva escatológica do Velho Testamento com mais detalhe, vendo alguns conceitos específicos da revelação, nos quais esta perspectiva está incorporada. Nós começaremos com a expectação do redentor vindouro. A narrativa da queda, encontrada nos primeiros versículos de Gênesis 3, é imediatamente seguida pela promessa de um redentor futuro no versículo 15: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar". Esta passagem, freqüentemente denominada "a promessa-mãe", passa a determinar todo o Velho Testamento. As palavras são endereçadas à serpente, mais tarde identificada como um agente de Satanás (Ap 12.9; 20.2). A inimizade instaurada entre a raça humana e a serpente implica em que Deus, que também é inimigo da serpente, será amigo do homem. Encontramos a promessa do redentor vindouro na predição de que finalmente o descendente da mulher esmagará a cabeça da serpente. Poderíamos dizer que, nesta passagem, Deus revela resumidamente todo o seu propósito salvífico para com o seu povo. A história da salvação ulterior é um desdobramento do conteúdo desta "promessa-mãe". A partir deste ponto, tudo na revelação do Velho Testamento olha para a frente, aponta para a frente, e ansiosamente aguarda o redentor prometido.
Esse redentor vindouro, descrito em Gênesis 3.15 apenas como o descendente da mulher, é designado como descendente de Abraão em Gn 22.18 (cp. 26.4; 28.14). Gn 49.10, mais adiante, especifica que o redentor deverá ser um descendente da tribo de Judá. Ainda mais tarde, no curso da revelação do Velho Testamento, aprendemos que o redentor vindouro será um descendente de Davi (II Sm 7.12-13).
Após o estabelecimento da monarquia, o povo de Deus do Velho Testamento reconheceu três ministérios especiais: os de profeta, sacerdote e rei. O redentor vindouro era aguardado como sendo o auge e o cumprimento de todos os três ministérios especiais. Ele deveria ser um grande profeta: "O Senhor teu Deus te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim (Moisés): a ele ouvirás" (Dt 18.15). Ele deveria ser um sacerdote eterno: "O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque" (Sl 110.4). Ele também deveria ser o grande rei do seu povo: "Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis af te vem o teu Rei..." (Zc 9.9). Em conexão com o reinado do redentor vindouro há uma predição específica de que ele se assentará no trono de Davi. O profeta Natã disse a Davi: "Quando teus dias se cumprirem, e descansares com teus pais, então farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino" (II Sm 7.12-13; cp. Is 9.7). Podemos também perceber que algumas vezes a vinda do futuro Rei e Redentor é identificada com a vinda de Deus a seu povo. Em Isaías 7.14, por exemplo, o redentor vindouro é denominado especificamente Emanuel, que significa "Deus conosco". Em Isaías 9.6, um dos nomes atribuídos ao redentor prometido é "Deus Forte". A.B. Davidson faz um comentário a respeito nas seguintes palavras: "Algumas vezes, a vinda 'de Jeová' é cumprida de acordo com a esperança messiânica - Jeová desce para junto de seu povo no Messias, Sua presença é manifestada e percebida nele... Deus está plenamente presente, com propósitos redentores, no rei Messiânico. Esta é a concepção messiânica mais sublime"6. Lado a lado com a concepção de que o redentor vindouro será um profeta, um sacerdote e um rei, porém, encontra-se em Isaías, igualmente, a visão de que o redentor será o Servo sofredor de Deus. O conceito de "Servo do Senhor" aparece freqüentemente em Isaías, sendo que, algumas vezes, designa a nação de Israel e outras vezes descreve o redentor vindouro. Entre as passagens de Isaías que descrevem especificamente o Messias vindouro como o Servo do Senhor estão: 42.1-4; 49.5-7; 52.13-15, e todo o capítulo 53. É especialmente Isaías 53 que retrata o redentor vindouro como o Servo sofredor de Jeová: "ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados" (v.5). De passagens como essas nós aprendemos que o redentor, cuja vinda o crente do Velho Testamento aguardava, era considerado, pelo menos no tempo dos últimos profetas, como alguém que iria sofrer por seu povo a fim de redimi-lo. Outra forma pela qual o Velho Testamento descreve a vinda do redentor é como o Filho do Homem. Encontramos este tipo de expectação particularmente em Daniel 7.13-14:
“Eu estava olhando nas minhas visões da noite e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do homem, e dirigiu-se ao Ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado domínio e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído.”
Em o Novo Testamento, o Filho do Homem é especialmente identificado com o Messias.
Em resumo, podemos dizer que o crente veterotestamentário aguardava um redentor, de maneiras diversas e pelo sentido de várias figuras, que deveria vir em algum tempo futuro (ou nos "últimos dias", para usar uma figura de linguagem comum ao Velho Testamento) para redimir seu povo e, também, para ser uma luz aos gentios. Pedro, em sua primeira epístola, nos dá um quadro vívido sobre o modo como os profetas do Velho Testamento aguardavam a vinda deste Redentor messiânico: "A respeito desta salvação, os profetas, que falaram da graça que haveria de vir para vós, buscaram atentamente, e com o maior cuidado, procurando descobrir a época e as circunstâncias às quais o Espírito de Cristo neles estava-se referindo, quando ele predisse os sofrimentos de Cristo e as glórias que se haveriam de seguir" (I Pe 1.10-11, NIV).
Outro conceito da revelação bíblica no qual a perspectiva escatológica do Velho Testamento está incorporada é o do reino de Deus. Apesar de o termo "reino de Deus" não ser encontrado no Velho Testamento, o pensamento de que Deus é rei está presente, particularmente nos Salmos e nos profetas. Deus é denominado, freqüentemente, de Rei, tanto de Israel (Dt 33.5; Sl 84.3; 145.1; Is 43.15) como de toda a terra (Sl 29.10; 47.2; 96.10; 97.1; 103.19; 145.11-13; Is 6.5; Jr 46.18). Porém, devido à abundância de pecado e rebelião nos homens, o senhorio de Deus é efetuado apenas imperfeitamente na história de Israel. Por causa disso os profetas aguardavam um dia quando o reinado de Deus pudesse ser provado plenamente, não somente por Israel, mas pelo mundo inteiro?
É especialmente Daniel quem desenvolve a idéia do reino vindouro. No capítulo 2 de sua profecia, ele fala acerca do reino que Deus um dia levantará, que nunca será destruído, que quebrará todos os outros reinos em pedaços e que permanecerá para sempre (vs.44-45). E em 7.13-14, como vimos, àquele um como filho do homem é dado um domínio eterno e um reino que não será destruído. Por causa disso Daniel prediz não apenas a vinda de um reino futuro, mas conjuga este reino com a vinda do Redentor, a quem descreve como o Filho do Homem.
Mais um conceito veterotestamentário com implicações escatológicas é o da nova aliança. Como muitos eruditos do Velho Testamento têm mostrado, a idéia da aliança é central à revelação do Antigo Testamento. Nos dias de Jeremias, entretanto, o povo de Judá havia quebrado a aliança de Deus com eles por meio de suas idolatrias e transgressões. Embora o tema principal das profecias de Jeremias seja o de condenação na ruína, ele efetivamente prediz que Deus fará uma nova aliança com seu povo: "Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam minha aliança" (Jr 31.31-32; ver também 33-34). A partir do Novo Testamento (veja Hb 8.8-13; I Co 11.25) fica claro que a nova aliança predita por Jeremias foi instaurada pelo nosso Senhor Jesus Cristo.
Proeminente entre os conceitos escatológicos do Velho Testamento é a restauração de Israel. Após a divisão do reino, ambos, Israel e Judá, caíram mais e mais na desobediência, idolatria e apostasia. Por causa disso, os profetas pregaram que, devido à sua desobediência, o povo de ambos os reinos seria levado ao cativeiro por nações hostis, e ficaria disperso por terras estrangeiras. Mas em meio a essas predições sombrias há também profecias de libertação. Vários profetas pregam a futura restauração de Israel do seu cativeiro.
Observe, por exemplo, esta pregação do profeta Jeremias: "Eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; serão fecundas, e se multiplicarão" (23.3).
As palavras de Isaías 11.11 também vêm à mente: "Naquele dia o Senhor tornará a estender a mão para resgatar o restante do seu povo, que for deixado, da Assíria, do Egito, de Patros, da Etiópia, de Elão, de Sinear, de Hamate e das terras do mar".
É interessante notar a palavra "tornará" na passagem, a qual sugere que a futura restauração de Israel será um tipo de segundo Êxodo.
É importante observar, também, que a restauração de Israel pregada pelos profetas tem implicações éticas. Ambos, Ezequiel e Isaías (caps. 24-27) salientam que esta restauração não acontecerá isolada do arrependimento e rededicação de Israel ao serviço de Deus. Como George Ladd salienta:
"Eles (os profetas do Velho Testamento) prevêem a restauração, mas somente de um povo que tenha sido purificado e justificado. Sua mensagem, tanto de tribulação como de prosperidade, é endereçada a Israel para que o povo possa ser advertido sobre sua pecaminosidade e se converta a Deus. A escatologia é ética e religiosamente condicionada. Talvez o resultado mais significante da preocupação ética dos profetas é sua convicção de que não será Israel como tal [que] entrará para o remanescente crente e purificado"9.
Também encontramos, particularmente em Joel, uma pregação sobre o futuro derramamento do Espírito sobre toda a carne. As bem conhecidas palavras da profecia de Joel são:
"E acontecerá depois que derramarei o Meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o Meu Espírito naqueles dias." (Joel 2:28-29).
Este derramamento do Espírito, portanto, foi outro evento escatológico no horizonte do futuro ao qual o crente da época vétero-testamentária olhava com ansiosa antecipação. É notável, no entanto, nos versos seguintes da profecia de Joel, a menção de prodígios nos céus e na terra; sangue, fogo, e colunas de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor" (2.30-31).
Certas passagens do Novo Testamento (por exemplo, Lucas 21.25, Mateus 24.29) relacionam os sinais mencionados acima com a Segunda Vinda de Jesus Cristo. Contudo, Joel parece pregá-los como se eles fossem acontecer imediatamente antes do derramamento do Espírito. A menos que alguém interprete esses sinais de forma não literal (em cujo caso a transformação do sol em trevas poderia ser entendida como cumprida nas 3 horas de trevas enquanto Jesus estava na cruz), parecerá que Joel, em sua profecia, vê numa única visão, como acontecendo conjuntamente, eventos que de fato estão separados um do outro por milhares de anos. Este fenômeno, passível de ser chamado de perspectiva profética, ocorre freqüentemente nos profetas do Velho Testamento. Ele também acontece, como veremos adiante, em algumas passagens apocalípticas do Novo Testamento.
Esta passagem de Joel nos conduz a considerar outro conceito escatológico proeminente do período vétero-testamentário, qual seja, o dia do Senhor. Às vezes, nos escritos proféticos, o dia do Senhor é considerado como um dia no futuro próximo, quando Deus trará destruição repentina para os inimigos de Israel. Obadias, por exemplo, prediz a ruína de Edom como a chegada do dia do Senhor (vs.15-16). Entretanto, o dia do Senhor pode também referir-se a um dia final, escatológico, de juízo e redenção. Às vezes e este é outro exemplo da perspectiva profética um dia do Senhor próximo e um distante são vislumbrados juntos, na mesma visão. Isaías 13, por exemplo, fala de um dia do Senhor no horizonte não tão longínquo, quando Babilônia será destruída (vs.6-8,17-22). No mesmo capítulo, porém, espalhado entre descrições da destruição de Babilônia, encontramos referências ao dia escatológico do Senhor, no futuro distante:
"Eis que vem o dia do Senhor, dia cruel, com ira e ardente furor para converter a terra em assolação, e dela destruir os pecadores. Porque as estrelas e constelações dos céus não darão a sua luz; o sol logo ao nascer se escurecerá, e a lua não fará resplandecer a sua luz. Castigarei o mundo por causa da sua maldade, e a iniquidade dos perversos por causa da sua iniquidade" (v.5).
Parece como se Isaías estivesse vendo a destruição de Babilônia e o dia escatológico do Senhor, o dia final, como sendo um dia só, uma visitação divina.
Muito freqüentemente, porém, a expressão "o dia do Senhor" é usada pelos profetas para retratar um dia final, escatológico, de visitação. Às vezes o dia do Senhor significa juízo para Israel. Nos dias de Amós era comum se pensar que o dia do Senhor traria somente bênçãos e prosperidade para Israel. Amós, porém, perturbou o contentamento comum ao dizer:
"Ai de vós que desejais o dia do Senhor! Para que desejais vós o dia do Senhor. É dia de trevas e não de luz." (Amós 5:18).
De modo similar, Isaías descreve o dia do Senhor como um dia de juízo para o povo apóstata de Judá:
"Porque o dia do Senhor dos Exércitos será contra todo soberbo e altivo, contra todo o que se exalta. A arrogância do homem será abatida e a sua altivez será humilhada; só o Senhor será exaltado naquele dia" (Isaías 2:12,17).
Também Sofonias fala do dia do Senhor como um dia de ira:
"Está perto o grande dia do Senhor; está perto e muito se apressa. Atenção! o dia do Senhor é amargo e nele clama até o homem poderoso. Aquele dia é dia de indignação, dia de angústia, e dia de alvoroço e desolação, dia de escuridade e negrume, dia de nuvens e densas trevas." (Sofonias 1:14-15).
Pelo restante do livro fica claro que o dia de ira, de Sofonias, refere-se tanto a um dia de juízo para Judá num futuro imediato como a uma catástrofe escatológica, final e destruição.
Todavia, o dia do Senhor não traz unicamente juízo e desolação. Às vezes, é dito que o dia trará salvação. Joel 2.32, por exemplo, promete salvação a todo o que invocar o nome do Senhor antes da chegada do dia do Senhor. E em Malaquias 4, não é só juízo que é proferido contra os malfeitores, em conexão com a vinda do "grande e terrível dia do Senhor" (v.5), mas são igualmente prometidos cura e gozo a todos os que temem o nome de Deus (v.2). Poderíamos resumir, observando que o dia do Senhor pregado pelos profetas do Velho Testamento será um dia de juízo e ira para uns, mas de bênçãos e salvação para outros.
Embora o conceito do dia do Senhor tenha, freqüentemente, uma conotação de tristeza e de trevas, há ainda um outro conceito escatológico do Velho Testamento, que tem um toque mais brilhante: o de novos céus e nova terra. A esperança escatológica do Velho Testamento sempre inclui a terra:
"A idéia bíblica de redenção sempre inclui a terra. O pensamento hebraico via uma unidade essencial entre homem e natureza. Os profetas realmente não pensam na terra como apenas um teatro indiferente no qual o homem executa seus deveres normais, mas como a expressão da glória divina. Em lugar algum o Velho Testamento prega a esperança de uma redenção incorpórea, imaterial, meramente "espiritual", como o faz o pensamento grego. A terra é o cenário divinamente arranjado para a existência humana. Mais tarde, a terra foi envolvida na maldade trazida pelo pecado. Há uma inter-relação entre a natureza e a vida moral do homem; por causa disso, a terra tem de tomar parte na redenção final de Deus."
Esta esperança futura para a terra está expressa em Isaías 65. ab "Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; cholover 102 6 não haverá lembrança das coisas passadas, me obnez omojamais haverá memória delas" (cp. 66.22) sup sup 2010sise ajob ma obnqmwe esiers M sbniv smu Outras passagens de Isaías mostram o que esta renovação da terra envolverá: o que é árido passará a ser terreno frutífero (32.15), o deserto florescerá (35.1), os lugares secos serão fontes de água (35.7), a paz volverá ao mundo animal (11.6-8), e a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar (11.9).
Passemos, agora, a recapitular o que aprendemos a respeito da perspectiva escatológica do Velho Testamento. Bem no início, havia uma expectação por um Redentor vindouro que haveria de ferir ou esmagar a cabeça da serpente. Com o passar do tempo, houve um enriquecimento progressivo da esperança escatológica. Com certeza, os diversos itens desta esperança não subsistiram todos ao mesmo tempo, e eles assumiram formas variadas em tempos diversos. Mas se considerarmos estes conceitos de modo acumulativo, poderemos certamente dizer que em várias épocas o crente vétero-testamentário aguardava, no futuro, as seguintes realidades escatológicas:
(1) O Redentor vindouro
(2) O Reino de Deus
(3) A Nova Aliança
(4) A Restauração de Israel
(5) O Derramamento do Espírito
(6) O Dia do Senhor
(7) Os Novos Céus e a Nova Terra
Todas estas coisas avultam no horizonte da expectação: O crente do Velho Testamento não tinha, naturalmente, idéia clara sobre como ou quando estas expectações seriam cumpridas. No que lhe tocava, estes eventos escatológicos aconteceriam todos a uma vez, em algum tempo futuro, variavelmente denominado de "dia do Senhor", de os "últimos dias", de os "dias vindouros", ou de "naqueles dias".
Com uma perspectiva caracteristicamente profética, os profetas veterotestamentários intermesclavam itens relacionados à primeira vinda de Cristo com itens relacionados à segunda vinda de Cristo. Somente nos dias do Novo Testamento viria a ser revelado que o que, no Velho Testamento, era considerado como sendo em uma vinda do Messias seria cumprido em dois estágios: uma primeira e uma segunda vinda. O que por causa disso não era claro aos profetas do Velho Testamento foi clarificado na era do Novo Testamento.
Todavia, temos de reiterar que a fé do crente veterotestamentário era completamente escatológica. Ele aguardava a intervenção de Deus na história, tanto no futuro próximo como no distante. Foi, na verdade, esta fé-esperança que concedeu ao santo do Velho Testamento a coragem necessária para percorrer o caminho posto perante ele. O décimo-primeiro capítulo de Hebreus, ao olhar retrospectivamente para os heróis da fé, salienta especialmente este ponto. Ali é dito de Abraão: "aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador" (v.10). É dito acerca de todos os patriarcas: "Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas, vendo-as, porém, de longe, e saudando-as..." (v.13). E sobre todos os santos do Velho Testamento reunidos é declarado o seguinte: "Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé, não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido cousa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados" (vs.39-40).
Soli Deo Gloria!!!
Fonte: HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o Futuro.
IPB IV Centenário 08/11/26.

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