Cartas às Sete Igrejas - Cristo na Visão Apocalíptica
"Eis que vem com as nuvens, e todo olho O verá, até quantos O traspassaram. E todas as tribos da Terra se lamentarão sobre Ele. Certamente. Amém! Eu Sou o Alfa e Ômega, diz o Senhor Deus, aquEle que É, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso." (Apocalipse 1:7-8).
Na INTRODUÇÃO dessa série de estudos, traçamos um pano de fundo histórico do livro de Apocalipse, contextualizando também a sua mensagem central - Deus está no controle!
O livro todo se fundamenta e se desdobra em torno da visão de Deus no Seu trono e de Cristo à direita de Deus, compartilhando com o Pai da autoridade, domínio e controle sobre todo o universo.
Por mais de vinte séculos, desde a morte de nosso Senhor, os homens têm imaginado, escrito, pintado, estudado e, por vezes, desistido de elaborar uma visão de Cristo. Em tempos mais recentes, a partir de 1960, talvez pela carência de heróis e de grandes personalidades na arena das atenções mundiais, o interesse por Cristo foi renovado. O cinema, o teatro, a televisão, enfim os grandes veículos de comunicação em massa passaram a exibir uma imagem contemporânea de Jesus. Como os gostos variam, variam também as interpretações - alguns vêem o Jesus revolucionário; outros, um Mestre piedoso, mas totalmente impotente na mão dos opressores do seu tempo (o rosto e geralmente fino, com traços delicados e olhos serenos, complacentes); a sociedade de consumo o vê como um superastro ou um superpalhaço. Isto nos leva a uma questão importante:
Quem é Jesus Cristo, na realidade? Como Ele foi visto por Seus contemporâneos; João, por exemplo, autor do Livro do Apocalipse, antes e depois de Sua ressurreição?
A primeira parte desta pergunta é respondida principalmente nos Evangelhos; a segunda, nas posteriores aparições do Senhor aos Seus apóstolos culminando com esta última para João, na Ilha de Patmos.
No versículo 5 do capítulo 1 que João O descreve como:
Fiel Testemunha para uma igreja ameaçada de morte em razão da sua fidelidade.
Primogênito dos Mortos para uma igreja defrontada com a realidade do martírio.
Soberano dos Reis da Terra para uma igreja ameaçada de perseguição e terror por César, que se julgava rei e senhor do mundo.
Os versículos seguintes mostram-nos principalmente que o Cristo do Apocalipse é o mesmo dos Evangelhos e dos escritos proféticos do Antigo Testamento, o Cristo que Se relaciona conosco, míseros mortais. Há três aspectos de Sua pessoa que se destacam sob esta visão:
O Cristo da Experiência Transformadora (vs.5b,6)
O primeiro aspecto é este: Aquele que fala com João é o mesmo que transforma as vidas dos Seus discípulos; significa viver, resisti-Lo signìfica permanecer na morte; segui-Lo resulta em vida eterna (Jo 17.3) que em termos práticos estabelece para nós:
1 - Um novo valor: “Aquele que nos ama…” (vs.5). Parece tratar-se de algo simples, mas esta passagem tem transformado mais vidas do que se pode imaginar. O fundamento de toda revelação é o fato incontestável de que Deus nos ama. Esta é também a base da evangelização, da vida comunitária, da fé e das boas obras. “Nós O amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 João 4:19).
2 - Uma nova liberdade: “... pelo Seu sangue nos libertou dos nossos pecados” (vs.5). Liberdade é a palavra da moda; por exemplo, libertação da mulher, do homossexual, da opressão sobre os pobres, teologia da libertação. Sem entrar no mérito ou na avaliação deste modismo, as palavras do Apocalipse chegam a chocar o ouvinte moderno: “... pelo Seu Sangue nos libertou dos nossos pecados”. E evidente que, da ótica do Novo Testamento, a liberdade mais fundamental que antecede e proporciona qualquer outra é a liberdade da escravidão do pecado. O grande problema do homem é ele mesmo. A cura é o Sangue de Cristo e não o ativismo político, social ou religioso. A sociedade é a somatória dos seus cidadãos. Não existirá sociedade mais justa enquanto não houver cidadãos mais justos. Não existirá cidadão mais justo enquanto não houver conversão pessoal e individual a Jesus Cristo: liberdade pelo Seu Sangue.
3 - Uma nova identidade: “...e nos constituiu reino e sacerdotes para o seu Deus e Pai” (vs.6). O verbo está no pretérito perfeito, exprimindo um ato consumado de Deus em nosso favor, o que foi feito por Jesus. Somos reino, quer dizer, participamos do Seu governo hoje, através do ministério da proclamação com poder da Sua Palavra e da conquista dos espaços outrora dominados por satanás, em todas áreas, vivendo na prática das boas obras, que são obras do Reino (Mt 5:14-16). Somos sacerdotes, isto é, participamos do Seu sofrimento em favor de um mundo (humanidade e natureza) em pedaços, intercedendo sendo pregadores do amor de Deus aos homens, temos livre acesso, adorando e servindo-O. Aqui estão o privilégio e a responsabilidade de todo cristão (1 Pe 2:9,10).
4. Um novo propósito: “a Ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos” (vs.6). O propósito de tudo isso é a glória, ou seja, a manifestação resplandecente quase palpável da beleza de Deus, diante de todos. Destaca-se também o domínio: Não desanime João, não desanimem igrejas perseguidas da Ásia, servos do Senhor nos séculos posteriores; aprouve a Deus dar-lhes o Seu Reino (Lc 12:31,32).
O Cristo da Expectativa Motivadora (vs.7)
Dizem os teólogos que há uma dimensão dupla concernente ao Reino de Deus, uma relação de tensão: ele é chegado, está no meio de nós, e “há de vir”. A própria oração do Pai Nosso inspira-nos a clamar a cada dia: “venha o Teu Reino”. Como podemos viver as tensões de um Reino que já veio, mas não ainda totalmente? Como podemos caminhar sem desanimar? Onde encontrar alento para perseverar na luta, enquanto aguardamos a plenitude do reino de Cristo? Se lançássemos esta pergunta ao cristão do primeiro sécuIo, ele provavelmente diria: Cristo virá, essa é a nossa esperança. Essa expectativa da volta corpórea, visível e gloriosa de Cristo tem motivado a igreja através dos sécuIos, mesmo nos momentos de maior escuridão. João destaca aqui algumas convicções quanto a este evento:
1 - Vincula-o à ascensão de Cristo: “Eis que vem com as nuvens”, exatamente como Jesus subiu, Ele prometeu que descerá (At 1:9-11). Isso evidencia que trata-se mesmo do Cristo dos Evangelhos que Se refere no Apocalipse e faz o elo entre a ascensão e a vinda prometida. O texto de Atos também diz que “uma nuvem O recebeu”, aqui, “Ele vem com as nuvens” indicando o Seu poder sobre a natureza.
2 - Estabelece o Seu caráter amplo, universal, visível a todos os homens: “e todo olho O verá”. Não há evidência bíblica para uma vinda secreta de Cristo, muito pelo contrário, será totalmente visível, nas nuvens, a fim de buscar os Seus, julgar toda a Terra, condenar satanás e os demônios, estabelecendo o Seu reinado eterno, visível e triunfal. A esperança da Igreja sempre tem sido a Segunda Vinda de Cristo, gloriosa, estrondosa, ao som de trombetas e voz do arcanjo, visível, como relâmpago que sai do oriente e vai até ao ocidente (Lc 17:24).
3 - Considera-o um fato incontestável: “Certamente. Amém”. Não uma hipótese, antes uma verdade inequívoca, segura, absoluta da parte de Deus. As duas expressões “nai” (hebraico), traduzida como “certamente”, e “amem” (grego) traduzida como “amém”, indicam esta convicção: “com absoluta certeza, assim será”.
4. Estabelece o vínculo do Deus Pai com o Deus Filho. O Senhor Deus, o Todo-poderoso (expressões comumente usadas para referir-se ao Deus, o Pai) é também o Deus “que há de vir”, o Filho, o herdeiro de todas as coisas (veja 1:17).
O Cristo da Exteriorização Reveladora (vs. 9-20)
Quando João, no meio de sua tribulação e por causa do seu testemunho fiel, se encontrava exilado e aflito, Cristo, o mesmo que há de vir, revelou-Se a ele, aos seus sentidos físicos, numa atitude de profunda consolação. Cristo é visto por ele e até o toca. Este consolo carinhoso revela-nos alguns traços típicos do caráter amoroso do Salvador.
A descrição de Cristo em Apocalipse 1:12-16 não é um retrato físico literal, mas sim uma linguagem simbólica e apocalíptica. Cada detalhe serve para revelar a natureza divina, a autoridade, a eternidade e o poder glorioso do Cristo ressuscitado.Abaixo estão os significados teológicos de cada elemento dessa visão.
- Cabeça e cabelos brancos: Representam eterna sabedoria, pureza e antiguidade de dias (alusão à figura de Deus em Daniel 7:9).
- Olhos como chama de fogo: Simbolizam onisciência e santidade. Seus olhos penetrantes tudo veem e julgam.
- Pés como latão reluzente (bronze polido): Indicam força, estabilidade e justiça inabalável, simbolizando que Ele pisa sobre todo o mal.
- Voz como som de muitas águas: Representa autoridade e poder avassaladores, semelhante ao barulho de ondas violentas ou uma grande queda d'água.
- Espada de dois gumes saindo da boca: Ilustra o poder da Palavra de Deus, que divide, julga e traz condenação ou salvação.
- Rosto como o sol na sua força: Simboliza a glória resplandecente e majestosa de Deus, indicando que a presença divina é brilhante demais para os olhos humanos mortais. (1).
1 - O Seu cuidado para com João (vs.12,17), especialmente refletido nas palavras conhecidas de Jesus: “Não temas”. A mesma expressão era usada pelo Mestre nos eventos mais intensos do Seu ministério, a fim de tranquilizar os Seus discípulos. Como demonstrado no restante da Escritura, a revelação de Deus não é algo mecânico, como se Ele estivesse falando a um gravador insensível, que devesse registrar as Suas palavras. A revelação é dinâmica e considera o homem na sua integridade: ainda que João caia como morto diante da glória do Cristo ressurreto, Este o toca com Sua mão (a mesma mão marcada pelos cravos do sofrimento no Calvário). Isso revela o coração pastoral do Senhor, Aquele que cura as feridas e toca brandamente as ovelhas! Que grande exemplo para nós!
2 - O Seu cuidado para com as Igrejas (vs.13,16,20). Ele ainda anda no meio dos candeeiros, sustenta nas mãos as sete estrelas. As estrelas são os anjos das igrejas, os candeeiros são as igrejas. Ao estudarmos com cuidado a vida das sete igrejas, nos próximos capítulos do livro, veremos toda sorte de problemas: frieza espiritual, devassidão moral, infidelidade, legalismo, liberalismo. Qual destas é, pois, a lgreja de Cristo? Todas elas. Ele as adverte, as repreende e disciplina, mas não abre mão delas. Muitas vezes nos precipitamos a julgar e tropeçamos no falar Tg 1:19,20) quando enveredamos a atirar pedras no telhado alheio, esquecendo que o nosso é de vidro.
3 - O Seu esplendor e glória (vv. 14-16,18). Há váńas alusões a visões proféticas do Antigo Testamento, mas todas apontam para o mesmo fim: fazer convergir em Cństo todas as coisas. Se há algo que fica evidente e nos incita no Apocalipse, é esta visão de Cristo glorificado. João O conhecia muito bem como o Servo Sofredor, o Cordeiro morto por causa dos nossos pecados; mas no fundo do poço do seu desterro e perplexidade diante das igrejas ameaçadas pelos césares despóticos, a visão alentadora è da posiçäo atual de Cristo - revestido do esplendor, Senhor de todos e de tudo, controlador do Universo, Deus Todo-Poderoso,que tern as chaves da morte e do inferno. Paradoxo dos paradoxos: Todo-Poderoso e todo carinhoso, infinito e pessoal, pleno e suficiente, mas que Se revela e nos acolhe na nossa debilidade. Glorificado seja o Seu Nome, aleluia!
Fonte: Tudo Sob Controle, Guilherme Kerr Neto.
(1) Comentários Histórico-Culturais e Exegéticos:
KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida Nova.
LADD, George Eldon. Apocalipse: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova.
BEALE, G. K. O Livro do Apocalipse: Um Comentário Exegético. São Paulo: Shedd Publicações.
Teologia Bíblica e Dicionários de Símbolos:
STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD.
BARCLAY, William. O Novo Testamento Comentado: Apocalipse.
Soli Deo Gloria!!!

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