As Cartas às Sete Igrejas do Apocalipse



¹ Revelação de Jesus Cristo, que Deus Lhe deu para mostrar aos Seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que Ele, enviando por intermédio do Seu anjo, notificou ao Seu servo João,

² o qual atestou a Palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu.

³ Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as Palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo.

⁴ João, às sete igrejas que se encontram na Ásia, graça e paz a vós outros, da parte daquEle que É, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do Seu trono

⁵ e da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da Terra. Àquele que nos ama, e, pelo Seu Sangue, nos libertou dos nossos pecados,

⁶ e nos constituiu reino, sacerdotes para o Seu Deus e Pai, a Ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!"

Apocalipse 1:1-6


Antes de entrarmos no estudo do Apocalipse propriamente dito, vamos nos transferir um pouco para o clima e o espírito da época em que o livro foi escrito.

A data e o contexto

A maioria dos estudiosos conservadores tem concluído que esse livro foi provavelmente escrito por volta do ano 95 A.D. por João, o apóstolo de Jesus. Isto é confirmado por sólida evidência histórica: Clemente de Alexandria refere-se, em seus escritos, ao retomo de João da Ilha de Patmos; Eusébio confirma este fato, estabelecendo ademais que isto tenha ocorrido imediatamente após a morte de Domiciano, que ocorreu em 95 A.D.; Irineu também o confirma, declarando que o apóstolo João viveu em Efeso até o reinado de Trajano, após haver retomado da Ilha de Patmos (Walvoord, The Revelation of Jesus Christ). 

Portanto, temos suficiente evidência para sustentar que o livro foi escrito na época do imperador romano chamado Domiciano, que reinou entre 81 e 96 A.D.

Por este tempo, já havia se estabelecido em todo o império romano o culto ao imperador, que era considerado por si mesmo, e assim o exigia dos seus súditos, o título de “Senhor e Deus”. Alguns crêem, erroneamente, que Roma era extremamente rígida em matéria de religião. A evidência histórica aponta para a direção oposta: Roma era bastante tolerante. Na realidade, toda vez que uma nação nova era conquistada, como demonstração de boa vontade e boa vizinhança, os romanos conquistadores traziam para a capital do império, Roma, os deuses (ídolos de pedra ou madeira) das nações conquistadas, e imediatamente um templo era erigido em honra àqueles deuses. “Embora Roma estivesse disposta a desafiar as nações, não se dispunha a desafiar os seus deuses” (Clovis Chappel, Sermons from Revelation, p. 14). O cidadão romano, portanto, podia adorar a qualquer deus que lhe aprouvesse (havia suficiente número para satisfazer a todos os gostos), desde que também prestasse o culto devido à pessoa de César, senhor e deus dos romanos. E conquanto Roma fosse tolerante, a pequena, corajosa e crescente comunidade dos seguidores de Cristo não o era; ao contrário, era intransigente. O credo da Igreja Primitiva era tão simples e completo que dispensava muita explicação: “Jesus é Senhor! Só Ele, só Jesus é Senhor e Deus. O verdadeiro Cristão a ninguém, a nada mais se curva”. Só isso já seria suficiente desafio para nós, cristãos do século XXI.

Tenho ouvido aqui e ali um murmúrio doentio de que a igreja evangélica brasileira precisa de alguma perseguição para se purificar e tornar-se mais fiel ao Senhor. Contudo, isto é um engano; se não somos fiéis em tempos de liberdade, dificilmente o Seremos em tempos de perseguição. O verdadeiro valor da perseguição consiste em deixar evidente a infidelidade dos infiéis e realçar e depurar a fidelidade dos fiéis. O nosso estado, por sua vez, também é extremamente tolerante - você pode ter qualquer religião desde que se curve também ao César, ao César da mentira, da corrupção, do jogo do bicho, ao César do silêncio omisso ou do próprio trabalho comprometido. O que nos faltam em verdade são cristãos como aqueles primeiros: intolerantes, comprometidos só com um Senhor, a saber, Cristo.

Roma evidentemente não se agradou da posição daqueles homens e mulheres e empenhou-se com toda sua força e glória à tarefa de destruir o “pequeno rebanho que o Senhor comprara com o Seu próprio Sangue”. 

É neste contexto que o livro foi escrito: contexto de muitas lutas e provações, do desafio de “ser fiel e morrer”, de tornar-se vencedor (palavra esta que aparece na promessa feita a cada uma das igrejas, ao final de cada carta), quando tudo parecia perdido.


O propósito do livro

O propósito do livro torna-se assim muito claro: revigorar a fé, acender o zelo, firmar os pés dos peregrinos cristãos das igrejas da Ásia. 

Se tivéssemos de escolher o título para a mensagem do Apocalipse seria este: “Tudo Sob Controle”.

Apocalipse é uma palavra grega que significa literalmente “tirar o véu”, “desvendar”, “revelar”, “mostrar o que estivera encoberto”. E por trás de todo simbolismo, numerologia e imagens, às vezes difíceis de se interpretar no livro, uma doutrina fica mais do que evidente: a soberania de Deus. Por trás de cada evento, em cada visão, em cada momento de adoração e êxtase, o livro contém esta mensagem cristalina de que o Senhor Deus tem o controle de tudo. No tempo os césares (quem são os “césares” de hoje?) arrogavam-se a pretensão de serem os reis do mundo, Deus traz ao seu povo sofredor a mensagem animadora de que Ele reina sendo o “Soberano dos reis da terra”.


Há três perguntas de especial interesse para nós, que são respondidas nos primeiros versículos do livro:

A - De quem é a mensagem? De Jesus, vinda da parte de Deus através de um anjo e pela mediação de João.

B - Para quem é a mensagem? Para os servos de Jesus, não para João apenas, nem para as sete igrejas da Ásia somente, mas para todos os servos de Jesus. Isso inclui você e eu. A palavra servo (“doulos” no grego) indica alguém que já entregou todos os seus direitos ao Senhor e tem a vida disposta no altar do serviço a Deus e ao próximo.

C - Por que a mensagem foi escrita? 1º) Para mostrar as coisas que em breve devem acontecer. 2º) Para animar e abençoar todo aquele que lê, ouve e guarda as palavras deste livro. E O único livro da Bíblia que promete explicitamente semelhante bênção ao leitor. 3º) Para anunciar que o fim está próximo.


Na seguinte descrição de Cristo, temos inúmeras informações sobre Ele, que nos ajudarão no estudo das cartas às sete igrejas:

Quanto ao Seu caráter

1.) Ele é a “testemunha fiel”. Isto significa que Ele a tudo vê e tudo quanto vê relata com precisão.

2.) Ele é o “Primogênito dentre os mortos”. A doutrina da ressurreição era de especial significado para os cristãos em uma época em que muitos perderam a vida por amor aquEle que nos amou.

3.) Ele é oSoberano dos reis da Terra”. Nada foge ao Seu controle, nada sucede a nós que não tenha antes sido autorizado por Ele.


Quanto ao Seu compromisso conosco:

1. Ele nos ama. Isto nos abre a porta para o maravilhoso sentimento de valor pessoal tão negligenciado em nossos dias tumultuados.

2. Ele nos libertou com o Seu Sangue. Isto nos abre a porta da paz e sintonia com Deus (Hb 10).

3. Ele nos constituiu reino e sacerdotes. Isto nos abre a porta de um novo propósito e uma nova esperança; não é César o verdadeiro Rei, somente Deus é o Senhor e Rei.

Com este pano de fundo em mente, estudaremos as cartas às igrejas. Que o Senhor assim nos abençoe!


Fonte: Tudo Sob Controle, Guilherme Kerr Neto.



Soli Deo Gloria!!!



IPB IV Centenário, 14/06/26.

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