A Teologia do Pacto da Graça


“Sobreveio a Lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça.” Romanos 5 20.


Introdução

- Definição. O Pacto da Graça é o acordo eterno entre Deus e o homem, onde o Senhor oferece salvação, perdão e vida eterna através de Jesus Cristo. A salvação sempre foi pela graça, conectando o Antigo e o Novo Testamento.

- O Contexto. O Pacto da Graça foi instituído logo após a quebra do Pacto das Obras, no Éden. Enquanto o Pacto das Obras exigia a obediência perfeita de Adão, o Pacto da Graça depende da fidelidade de Jesus.


Texto Chave: 

“Pois pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus.” (Efésios 2 8).


A Origem e a Primeira Promessa

- Fundamentação Bíblica. Gênesis 3 15 o protoevangelho (*), a primeira promessa de salvação. Logo após a queda, Deus prometeu que a Semente da mulher, Jesus Cristo, esmagaria a cabeça da serpente.

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu Descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu Lhe ferirás o calcanhar.” Gênesis 3 15.

(*) Protoevangelho significa literalmente “primeiro Evangelho” (do grego "protos" - "primeiro", e "evangelion" - "boa notícia"). Refere-se à primeira promessa bíblica de salvação em Gênesis 3 15, onde Deus anuncia que a semente da mulher (Jesus) derrotaria a serpente (satanás), sofrendo uma ferida momentânea. É considerado o primeiro anúncio do Evangelho após a queda. (Adelpha - Mackenzie). 

 

- Conceito. A iniciativa é 100% de Deus. Ele não esperou o homem pedir perdão; Ele veio ao encontro do homem quando este houvera pecado. O Pai Celeste providenciou as primeiras vestimentas que nossos pais usaram, devolvendo a eles a dignidade perdida. Esse foi o primeiro ato de sacrifício, realizado pelo próprio Senhor Deus e Pai, cobrindo assim o pecado de Seus filhos, Adão e Eva.

“Fez o Senhor Deus vestimentas de peles para Adão e sua mulher e os vestiu.” Gênesis 3 21.


- O Pacto da Graça não foi um "plano b", mas a manifestação do amor redentor de Deus desde a eternidade. Quem pensa que o plano de Deus não deu certo porque o homem pecou não conhece a Bíblia. O Senhor já sabia antecipadamente o que iria acontecer, por isso preparou o Pacto da Graça na eternidade antes da fundação do mundo.

"Que nos salvou e nos chamou com santa vocação, não segundo as nossas obras, mas conforme Sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos.” 2ª Timóteo 1 9.


O Pacto da Graça Através da História

Este Pacto foi revelado em "camadas" ou administrações diferentes:

1. Com Abraão (Gênesis 12 1 e 2; 15 3 a 6; 17 1 a 8). Deus prometeu ser o Deus de Abraão e de sua descendência. A base é a promessa, não a Lei.

2. Com Moisés (Êxodo 20 1 a 17). A Lei não anulou a graça, mas mostrava ao povo como viver como propriedade de Deus. Através dos sacrifícios Deus apontava para a necessidade de um Salvador Santo, sem pecado, o eterno Cordeiro de Deus que "tira o pecado do mundo", o Sacrifício perfeito.

“Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados.” Hebreus 10 4.

“Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas.” Hebreus 10 10.

3. Com Davi ( Samuel 7). A promessa de um Rei eterno que governaria o povo de Deus.

Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então farei levantar depois de ti o teu Descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu Reino. Este edificará uma casa ao Meu nome, e Eu estabelecerei para sempre o trono do seu Reino.  Samuel 7 12 e 13.

4. A Nova Aliança (Jeremias 31 31 a 34). A promessa de que a Lei seria escrita no coração do povo do Senhor.

Segundo Calvino, [...] com essas palavras, Deus confirma que a novidade não era quanto à substância, mas apenas à forma, pois Deus não diz aqui: "Eu darei outra Lei", mas "escreverei minha Lei", isto é a mesma Lei que anteriormente havia sido entregue aos pais. Ele então não promete nada diferente quanto à essência da doutrina, mas faz a diferença apenas na forma. Mas Ele afirma a mesma coisa de duas maneiras e diz que colocaria Sua Lei em suas partes internas, e que Ele a escreveria em seus corações. De fato, sabemos o quão difícil é que o homem seja formado de tal modo que sua vida inteira esteja em harmonia com a Lei de Deus, pois todas as concupiscências da carne são tantos inimigos, como Paulo diz, que lutam contra Deus (Romanos 8 7). Como, então, todos os nossos afetos e concupiscências continuam assim em guerra com Deus, é de certa maneira uma renovação do mundo quando os homens sofrem para serem governados por Deus. E sabemos o que as Escrituras dizem, que não podemos ser os discípulos de Cristo, a menos que renunciemos a nós mesmos e ao mundo, e neguemos a nós mesmos (Mateus 6 24; Lucas 14 26). Essa é a razão pela qual (foi dito): "Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as Minhas Leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o Meu povo." (Jr 31:33). (Comentário de João Calvino do livro do Profeta Jeremias).


A Fundamentação Histórica e Teológica

Teologia Reformada. O Pacto da Graça é a espinha dorsal da Teologia Federal (Westminster). Ele ensina que a Bíblia é uma unidade orgânica, não um livro de histórias isoladas.

Unidade da Bíblia. Historicamente, a igreja defende que os santos do Antigo Testamento foram salvos pela esperança no Messias que viria, enquanto nós somos salvos pela fé no Messias que já veio. O meio (a fé) e o objeto (Cristo) são os mesmos.


A Plenitude em Cristo

Jesus como Mediador. Ele É o único que cumpriu os termos do pacto. Ele obedeceu perfeitamente (o que Adão não fez) e pagou a penalidade do pecado.

Cristo é o Mediador de uma nova e melhor aliança - Hebreus 9 15.

No Pacto da Graça, Deus exige fé, mas Ele mesmo concede a fé através do Espírito Santo.


Conclusão e Aplicação

Segurança. Se o Pacto da Graça dependesse de nós, nós o quebraríamos, pois somos pecadores. Como depende da fidelidade de Deus e da obra de Cristo, estamos seguros.

Gratidão. A resposta ao Pacto da Graça não é o medo do juízo, mas a obediência por amor e gratidão ao Senhor que tudo fez por nós.

Fidelidade. A maior prova de que fazemos parte do Pacto da Graça, e que somos gratos por isso, é a nossa fidelidade a Deus. Estar no Pacto não é teoria, mas muito pragmático, pois muda completamente a vida e a cosmovisão de quem faz parte dele.

Testamento, herança. No pacto das obras trabalhamos; no pacto da graça (testamento), Alguém pagou o preço para recebermos a herança eterna, sem termos trabalhado por ela.


SDG - Soli Deo Gloria!!!


Bibliografia reformada:

  • Confissão de Fé de Westminster (Capítulo VII).
  • Teologia Sistemática – Louis Berkhof: Parte II, Capítulo 1.
  • O Cristo dos Pactos – O. Palmer Robertson.
  • Cristo e a Teologia do Pacto – Cornelis P. Venema.
  • Monergismo - Teologia do Pacto.


IPB IV Centenário 03/05/26.

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