GRAÇA, ELEIÇÃO E FÉ


Por: Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Dois dos postulados da Reforma Protestante no século 16 foram: “Somente a Graça” e “Somente a Fé”. A fé é a boa obra do Espírito Santo em nós, pressupõe a nossa condição de pecadores, necessitados de salvação, e também pressupõe a livre graça de Deus.

O Catecismo Menor de Westminster (1647) na resposta à pergunta 86, assim define: “Fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora, pela qual O recebemos e confiamos só nEle para a salvação, como Ele nos é oferecido no Evangelho”.

1 - GRAÇA E FÉ EM JESUS CRISTO

A fé salvadora é fruto da graça de Deus que age através da Palavra (Rm 10:17; Ef 2:8). A genuína fé, identificada como salvadora, não é uma crença qualquer, cujo teor seja indefinido, tendo como virtude apenas o fato de poder crer; uma espécie de fé na fé. Ao contrário disso, tem como conteúdo Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Ela também está convencida intelectualmente de sua veracidade e incontestabilidade (Hb 11:1). Além desse elemento intelectual, consiste em uma rendição incondicional ao meu Senhor, em Quem descansa de forma amorosa e confiante. A fé que não parte de um conhecimento verdadeiro e, por isso mesmo, não é vivencial, não é a verdadeira fé bíblica. A fé é persuadida pelo conhecimento que a possibilitou crer.

Quando Paulo e Barnabé chegaram à Igreja de Antioquia, deram um relato sumário de seu trabalho. Registra Lucas: “Ali chegados, reunida à Igreja, relataram quantas coisas fizera Deus, com eles e como abrira aos gentios a porta da fé.” (At 14:27). Enfatizaram o poder soberano e operante de Deus em seu Ministério e, como Deus operou eficazmente chamando os Seus pela fé. É por meio da Palavra que Deus nos gerou espiritualmente, tornamo-nos Seus filhos. Deus providencia os meios para que os Seus eleitos ouçam o Evangelho e, ao mesmo tempo, os chama poderosamente, aplicando a Palavra aos seus corações.

2 - ELEIÇÃO PELA GRAÇA E FÉ

A eleição divina é-nos totalmente estranha até nos conscientizarmos dessa realidade pela fé. A fé é a causa instrumental de nossa salvação; todavia a causa essencial é a nossa eleição. A fé e o arrependimento são resultado da eleição.
A eleição é mãe da fé” (Calvino). A fé não é precondição da eleição, no entanto, ela evidencia e confirma a nossa eleição. Deus em Sua misericórdia em tudo Se antecipou a nós. A fé é dos eleitos de Deus (Tt 1:1). Ele não nos elegeu porque um dia teríamos a fé, mas sim para que tivéssemos fé. Sem a graça de Deus não haveria fé, e a fé é essencial à salvação, como uma evidência da eleição. Portanto, só os que creem serão salvos, e só creem os eleitos (1 Ts 1:3-4; 2 Ts 2:13).

A fé não tem méritos salvadores, ela é apenas o instrumento gracioso de Deus para a apropriação da salvação preparada pelo Trino Deus para o Seu povo escolhido (Lc 8:12; At 16:31; 1 Co 1:21; Ef 2:8; 2 Ts 2:13). A fé se constitui em mão receptora, não criadora ou geradora de algum bem, o qual venhamos a receber do Senhor.
 
3 - GRAÇA QUE ATUA POR MEIO DA PALAVRA: CONHECIMENTO E FÉ

Deus É Quem abre o nosso coração e mente para que possamos entender salvadoramente a mensagem do Evangelho (Lc 24:30-32,45). O meio que Deus usa para atingir a mente e o coração das pessoas é a exposição de Sua Palavra, a Bíblia. O Espirito Santo, operante por meio da pregação e exposição da Palavra, não força as evidências, nem nos obriga a diminuir a nossa capacidade de pensar, antes nos faz enxergar e crer nas evidências que estão ali diante de nós tão eloquentemente (At 3:16; 16:14; 18:27; Rm 4:16; 1 Co 3:5; Fp 1:29). 


Lucas relata aspectos da rotina evangelística de Paulo: “Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras, expondo (pregando, ensinando, explicando e interpretando) e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio.” (At 17:3).

A fé salvadora exige conhecimento da Palavra de Deus. A fé é uma relação de confiança. Como acreditar em alguém que não conhecemos? A fé consiste no conhecimento do Pai e do Filho pelo testemunho do Espírito (Jo 15:26; 16:13-14;
17:3). É impossível crermos e nos relacionarmos pessoalmente com um Deus desconhecido. Somente conhecendo a Deus poderemos amá-Lo, nos relacionando pessoalmente com Ele, experimentando existencialmente deste privilégio, conhecendo as Suas promessas, levando a sério a Sua Palavra, tendo o discernimento claro de Sua majestade e integridade.

A razão estigmatizada pelo pedaço, que se mostra tão eficaz nas coisas naturais, perde-se diante do grandioso mistério de Deus revelado em Cristo, e também diante da Revelação Geral, na natureza. A graça, portanto, antecede à fé e ao conhecimento. A fé consiste na convicção de que a salvação está além de nossos recursos; no caso da fé salvadora, significa que depositamos nossa fé em Deus por intermédio de Cristo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Biblicamente falando, a fé salvadora é uma fé Teológica e Cristocêntrica. A Teocentricidade da fé é Cristocêntrica. Crer no Pai é o mesmo que crer no Filho (
Mc 11:22; Jo 5:24; 12:44; 14:1; At 20:21; Rm 3:22,26; 4:24; Gl 2:20; 1 Pe 1:21; 1 Jo 3:23). Sem Jesus Cristo, o Pai continuaria inacessível a nós (Lc 10:22; Jo 8:12; 14:6; 1 Tm 2:5; 6:16). Uma fé supostamente depositada no Pai, sem a aceitação do Filho como Senhor e Salvador, não é a genuína fé bíblica. É impossível roconhecer o Senhor Deus como Pai, sem ter o Deus Filho como irmão primogênito (Rm 8:29).

O fundamento da fé é o Deus Fiel, aquEle que a gerou e a sustenta (1 Co 2:4-5; 1 Pe 1:21). Sem a graça de Deus jamais creríamos na mensagem do Evangelho, jamais poderíamos entendê-la de forma salvadora, e portanto, de modo algum seríamos salvos. Por sua vez, esta Palavra uma vez ouvida, entendida e crida, produz frutos em seus receptores (Cl 1:3-6,12).

Temos que nos apegar à Verdade, para que não nos desviemos dela. O escritor de Hebreus após falar a respeito da superioridade de Cristo sobre todas as coisas exorta-nos a dar atenção à Sua Palavra, para que não nos desviemos, por negligência, em nossa rota de obediência a Ele: “Importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos.” (Hb 2:1).

Estudo publicado no Jornal Brasil Presbiteriano, Outubro / 2013.

IPB de Vila Gerti, S.C.Sul / SP
Estudos Bíblicos 05, 12 e 19/02/14.

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