Mochileiros da Fé


Por: Ricardo Bitun

Os “mochileiros da fé” são aquele grupo de pessoas que se movimenta de uma religião para outra, numa forma de nomadismo religioso que é observado no Brasil. Essas pessoas não se prendem a um credo, ou confissão de fé, mas buscam benefícios e soluções para suas questões pessoais. Esse movimento ocorre em duas fases: a interorganizacional, que é a saída do catolicismo, espiritismo e religiões afro, para o pentecostalismo; e a intraorganizacional que é a movimentação dentre as denominações. Seguindo aquilo que Max Weber chama de “processo de secularização”, onde o que é considerado sagrado passa por uma racionalização técnica, observa-se que os “crentes passeadores”, ou “peregrinos da fé”, buscam para si um lugar onde possam satisfazer seus desejos consumistas, acirrando a competição entre as grandes igrejas, que buscam amealhar para si o maior número possível de mantenedores. Para atingir este objetivo, chamam seus fiéis para o “combate do diabo”, que lhes causa toda sorte de males: doenças, desemprego, vícios, problemas conjugais, etc. Fazem uso de uma diversidade de objetos e “símbolos mágicos”, que nas mãos ungidas de seus profetas, supostamente tem o poder de afastar o mal: sal grosso, rosa ungida, fogueira santa, campanhas de todo tipo, etc. Os mochileiros sentem-se à vontade para prosseguir em sua peregrinação até alcançarem o que desejam.

Para entendermos melhor o nomadismo religioso na sociedade moderna, precisamos compreender os conceitos sociológicos da sociedade tradicional e sociedade moderna. “Sociedade tradicional” refere-se um sistema social de culturas mais avançadas, que tinha as seguintes características: existência de um poder central, separação da sociedade em classes sócio-econômicas, e imagem central de mundo. As relações ocorriam em vínculos familiares, valorizava-se a família, a tradição e a autoridade, e a base econômica era rural, agrícola. A estrutura social hierárquica, implementada pela igreja católica, não era jamais questionada, mas tida como divina, apesar de muitas incertezas. As posições sociais eram transmitidas rígida e hereditariamente. A sociedade moderna se faz presente num tempo de contradições e conflitos: conforto e miséria, tecnologia e falência social, superpopulação e solidão, etc. Vários fatores geraram tal situação: economia, industrialização, urbanização, ciência, burocratização, etc. Essa transição da sociedade tradicional para a moderna fortaleceu o Estado, o mercado e a moeda. A velha ordem cedeu espaço para a burguesia, a economia tradicional para o capitalismo, onde o consumo é priorizado como norma social. A busca pelo lucro tornou-se prioridade, caíram barreiras éticas, e a secularização tornou-se uma exigência da modernidade. Desse modo, a sociedade passou a buscar viver um tipo de “paraíso” aqui na Terra, pois a secularização invadiu até a religião, fato que se evidencia na busca de uma vida onde os bens e o consumo são símbolos de felicidade, prazer e satisfação. Enquanto na fé cristã a plenitude de realização do homem está na vida eterna pós-morte, na visão modernista essa realização tem que ocorrer aqui e agora, na Terra, em vida. O homem moderno é dinâmico, empreendedor, criador, realizador. Ele se sente o seu próprio deus terreno, pois tem capacidade criativa, desenvolve sua própria ética, é versátil, insatisfeito e não conhece limites ao seu conhecimento e satisfação de necessidades e desejos. O homem moderno se sente capaz de fazer qualquer coisa que desejar.

Nesse contexto acontece o “trânsito religioso” dos mochileiros, onde o pentecostalismo desponta com todas as suas divisões e vertentes. As igrejas pentecostais, divergentes das igrejas históricas, são as que mais crescem numericamente no Brasil. Entre 1990 e 1992 eram fundadas 5 igrejas por semana só no Rio de Janeiro, e 400 católicos por hora se tornavam membros dessas igrejas. Esse crescimento estrondoso dos pentecostais atraiu a atenção da mídia e de pesquisadores da religião, no estudo desse fenômeno, para o qual não há um nome específico. O estudo da história do pentecostalismo e do protestantismo no Brasil como um todo, nos dá melhores noções desse fenômeno.

Os primeiros protestantes que chegaram aqui eram franceses que vieram com a expedição de Villegaignon, isso foi em 1555. Eles foram expulsos em 1615. Em 1645 protestantes holandeses aqui chegaram sob o governo de Maurício de Nassau. Após a vinda da família real ao Brasil, mais protestantes chegaram e surgiram as primeiras capelas anglicanas. 1824 foi o ano em que foi instituída a liberdade religiosa, e muitos imigrantes luteranos vieram para o Brasil. Capelas luterana e anglicanas foram construídas para dar assistência aos imigrantes europeus, era o chamado “protestantismo de imigração”. Mas houve um segundo tipo de protestantismo, o “protestantismo de missão”, ou “de conversão”, destacando-se a Igreja Metodista americana em 1836, Igreja Presbiteriana americana em 1859, Igreja Batista em 1881, e a Igreja Episcopal em 1889.

O pentecostalismo surgiu nos Estados Unidos no começo do século XX, com ênfase na glossolalia (línguas estranhas). Esse movimento iniciou-se em Topeka (Kansas) no ano de 1900. As primeiras Igrejas Pentecostais que vieram para o Brasil foram: Congregação Cristã no Brasil, e a Assembleia de Deus. Essas, juntamente com a Igreja do Evangelho Quadrangular, são consideradas as “pentecostais clássicas”. Com o passar dos anos surgiram as “pentecostais de cura divina”, entre elas se destacam: Deus é Amor, O Brasil para Cristo, Casa de Bênção; e as “neopentecostais”: Internacional da Graça, Sara Nossa Terra, Renascer em Cristo, IURD - Universal do Reino de Deus (1977), IIGD - Igreja Internacional da Graça de Deus, IMPD - Mundial do Poder de Deus (1998), e muitas outras. Essas igrejas que enfatizam a cura divina podem também ser classificadas como “agências de cura divina”, pois não são formadas por um corpo de fiéis fixo, mas possuem uma população flutuante e sem compromisso com a comunidade local, que são pessoas em busca de benefícios (serviços) religiosos, que recebem através de suas contribuições financeiras, ou compensações pecuniárias. Tais igrejas trabalham numa larga visão de administração e marketing, assemelhando-se a um tipo de “empresa”. Há um distanciamento da Bíblia, e a busca imediata de “favores sagrados”, através da oração intercessória, num intenso “ambiente de magia”.

Destacam-se no contexto das “neopentecostais”, a IURD - Universal do Reino de Deus (1977), a IIGD - Igreja Internacional da Graça de Deus, e a IMPD - Mundial do Poder de Deus (1998), que exploram a cura divina, contam com uma alta taxa de rotatividade de membros, ainda que possuam uma base estável de participantes, e conseguiram amealhar valores astronômicos de verdadeiros impérios no mundo empresarial, através da propagação de suas doutrinas no rádio e televisão, onde as bênçãos são adquiridas pela mesma fé que o participante precisa ter para fazer doações, ofertas, entrega dos dízimos (a IMPD inovou com a invenção do “trízimo”, onde as pessoas deveriam dar 30% de sua renda como sinal de fé). Em cerca de 30 anos a IURD, fundada por Edir Macedo, já possui mais de 23 emissoras de televisão, 40 de rádio, e um pool de mais de 19 empresas entre elas: jornais, gráficas, agência de turismo, imobiliária, táxi aéreo, seguro e saúde. Geralmente os líderes dessas denominações são acusados pela justiça e imprensa de charlatanismo e curandeirismo.

A IMPD, cujo fundador é Valdemiro Santiago, dissidente da IURD, nasceu em Sorocaba, e rapidamente cresceu oferecendo cura, salvação, libertação e prosperidade. Desafiando a IURD em programas de rádio e televisão, a IMPD foi construída, cresceu e prosperou. Valdemiro criou um império religioso através da chamada “identidade contrastiva”, na tese do “nós” diante dos “outros”, onde ele acusa as igrejas evangélicas, em especial a IURD, de persegui-lo, só pensarem em dinheiro, e invejá-lo. Em apenas 9 anos, a IMPD possui mais de 2.000 templos no Brasil, e em alguns países do exterior: Moçambique, Suíça, Japão e Estados Unidos. Com seu rápido crescimento a IMPD causa preocupação nos líderes da IURD e IIGD, por atrair o mesmo público algo, um povo que caminha e transita entre essas denominações, sem questionar-se ou culpar-se, procurando quem melhor lhes beneficie, intensificando o “trânsito religioso”. Muitos destes que são oriundos do catolicismo das religiões afro, agora migram de uma igreja para outra procurando a sua “bênção”. Objetos e símbolos “ungidos” são utilizados largamente, tanto na IURD, IIGD e IMPD, na intensão de laçar e segurar os “fiéis” em busca de um “milagre”: rosas, óleo, lenços, copos com água, sal, etc., são apenas alguns exemplos. Os seguidores muitas vezes pagam por esses “objetos ungidos” através de “ofertas de fé” que são coletadas culto após culto, campanha após campanha, ou até de valores estipulados para cada item, onde a “fé” da pessoa é posta à prova. Na visão de Valdomiro os resultados caracterizam a verdadeira igreja, numa referência direta à IMPD, ao passo que o termo “religião” é utilizado para se referir às demais igrejas que não enfatizam a bênção e o milagre, ou seja, que não apresente esses “resultados”. Outra estratégia utilizada por ele é a ideia da “peregrinação”, onde a pessoa deve participar de inúmeros cultos em busca de seu milagre, até que o obtenha. Geralmente ele entrevista pessoas, que respondendo às suas indagações, concordam que na “outra religião” (demais igrejas evangélicas, e em especial a IURD) não haviam obtido a sua bênção, mas que ao frequentarem a IMPD, conseguiram recebê-la. A IMPD é citada como a “última porta”, ou seja, após ela a pessoa não precisa procurar mais, pois já encontrou a igreja que precisava.

Essas denominações geralmente apelam para as necessidades dos indivíduos, e em entrevistas radiofônicas ou televisivas, exploram a imagem de uma Igreja onde os problemas são resolvidos: enfermidades, necessidades financeiras, crises conjugais, opressões espirituais, etc. A pessoa entrou na igreja cheia de problemas e logo tudo foi resolvido. Essa tática favorece o trânsito de fiéis em busca da igreja que tenha mais poder, unção, etc. Há uma infidelidade religiosa explícita para com as origens, assim desponta o nomadismo religioso dos mochileiros da fé.

Fato constatado inicialmente nos Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial, as tradições eclesiásticas vão sendo paulatinamente substituídas pela mídia, e os indivíduos estão sempre buscando soluções rápidas para seus dilemas. Assim, o movimento de “cura divina”, tanto lá como aqui, tem crescido enormemente graças às mídias de comunicação em massa. A partir da década de 1950, Manoel de Melo (Casa da Bênção) e Davi Miranda (Deus é Amor) foram os precursores desse tipo de estratégia de marketing. Igrejas como IURD, IIGD e IMPD investem milhões mensalmente na divulgação pela mídia eletrônica e escrita. Slogans tornam-se conhecidos como os da IMPD: “a igreja onde as coisas acontecem”, e “a mão de Deus está aqui”; e famoso da IURD: “pare de sofrer”. Hoje a IURD dispõe de dezenas de emissoras de TV e rádio, mas em seu início percorreu o mesmo caminho que hoje percorre a IMPD: a compra de horários televisivos. Recentemente a IMPD comprou 22 horas diárias do Canal 21. 

Diferentemente das demais neopentecostais, a IMPD tem em suas estratégias a ênfase na cura divina, enfatizando inclusive não ser necessidade da pessoa ir à igreja, mas pregam que assistindo aos programas pela televisão ela já poderá ser curada. Certamente o tempo gasto diante da televisão atrairá as pessoas para os cultos públicos. Eles não adotam a nomenclatura das “correntes” para os cultos que exigem uma continuidade de frequência dos fiéis, no intuito claro de se diferenciar de sua maior concorrente, a IURD, mas convocam as pessoas para frequentar “séries de cultos” ou “campanhas” de sete semanas, doze dias, etc., sem jamais utilizar as mesmas terminologias da IURD. Também há convocações para diversos tipos de jejuns, reuniões e cultos, e as sextas-feiras da consumação, ou do manto sagrado. Existem também as distribuições dos “pães abençoados”, “água abençoada”, “fronha da felicidade”, e a famosa “toalhinha ungida”, que dão a sensação de um tipo de “proteção mágica”, numa referência clara a símbolos provenientes das religiões afro, e do catolicismo. Valdemiro gaba-se até do “poder” de seu suor, que pode ser levado em lenços para curar enfermos, e da unção que flui de seu sapatos, bastando os fiéis tocarem neles para serem curados. Há uma acomodação geradora de um sincretismo religioso, implementado e mantido através das promessas de libertação, cura e prosperidade, gerando uma grande movimentação de pessoas, o fenômeno chamado “trânsito religioso”.

Esse trânsito se dá com tanta normalidade, como se as pessoas estivessem em uma estação de metrô. Eles vão e vem buscando respostas às suas angústias e sofrimentos, por isso ocorre uma grandiosa fragmentação institucional. Surgem inúmeras igrejas dia após dia, que concedem aos mochileiros grande facilidade de encontrar novos “acampamentos da fé”, onde possam desfrutar de momentos cada vez mais agradáveis. Após as temporadas eles recolhem suas barracas e partem em busca de um novo local para estar. Os católicos são os que mais perderam fiéis, seguidos dos protestantes históricos; os neopentecostais foram os que mais receberam esses fiéis. Igrejas como IURD e IMPD se destacam por oferecer alternativas aos mochileiros, enfatizando a cura divina e a prosperidade financeira.

Esse quadro se encaixa no processo de secularização descrito por Max Weber (WEBER, 1989, p.88-90) onde ele cita as “religiões substitutivas”, de uma forma totalmente inusitada no que alguns autores classificam de “eclipse da religião”. Para alguns pensadores, esse ressurgimento religioso pode ser encarado como um tipo de “reencantamento do mundo”; mas outros como Antonio Flávio Pierucci, acreditam no “desencantamento do mundo”, através do declínio da religião, que forma uma “condição estrutural da sociedade”, não podendo influenciar a cultura moderna de modo significativo. Na mesma linha de pensamento de Pierucci, Carvalho destaca “o processo de descontextualização ou subtração de aspectos parciais de uma tradição religiosa histórica”, reduzindo “contextos religiosos a meras técnicas a serem exploradas no mercado profissional” da fé. Desse modo há um tipo de secularização acontecendo nesse crescimento pentecostal exacerbado. Prova disso é a organização empresarial da religião, com grande “cientificismo técnico”, aliado ao misticismo de objetos “poderosos”, ou místicos, como fronhas, rosas, lenços, etc., que denotam claros sinais da religiosidade afro e católica brasileira. Outro sinal da secularização religiosa nesse contexto é o perfil dos frequentadores dessas religiões, os chamados “mochileiros da fé”, que são “fiéis autônomos, independentes, que não possuem necessariamente um líder, uma ideologia, ou até mesmo uma religião à qual devotariam seu compromisso”, mas o que os motiva são seus próprios interesses e desejos pessoais, exatamente o que caracteriza o homem moderno. A religião declinou passando a ser apenas mais um item de consumo.

A peregrinação ocorre em duas etapas distintas: interdenominacional, que é a passagem de uma religião para outra; e a intradenominacional, que é a movimentação entre as igrejas neopentecostais. É assim que se forma a identidade dos mochileiros: movimentando-se dentro do campo neopentecostal, internalizando-se nesse “novo” ambiente social religioso, onde o que atrai, prende e impulsiona os mochileiros não é a conversão, a salvação da alma, e a proposta de uma vida íntima com Deus, mas a busca de curas, satisfação imediata de desejos e necessidades, e a prosperidade financeira. O perfil dos mochileiros é sempre semelhante: geralmente pertenciam a uma igreja não evangélica, vivenciaram uma experiência com uma igreja evangélica, foram atraídos por programas televisivos que prometiam cura e prosperidade, foram convidados por um amigo ou parente a visitarem o lugar onde os milagres supostamente acontecem, e passaram então a peregrinar em busca de um futuro promissor. O sagrado passou, nesses contextos, por um processo de secularização, favorecendo grandemente a migração e o trânsito religioso.

Observa-se claramente uma disputa entre algumas igrejas neopentecostais, em busca dos fiéis mantenedores de seus impérios religiosos. A disputa mais acirrada que se observa nos últimos anos, acontece entre a IURD e a IMPD. Essa segunda igreja, obteve um crescimento vertiginoso alavancado através de técnicas de manipulação televisiva, que inclui a promessa da cura e a prosperidade, e o ataque frontal à IURD. Essas Igrejas atuam como empresas em busca de metas de arrecadação e crescimento financeiro, utilizando para esse fim estratégias de marketing, oferecendo aos fiéis a possiblidade da não vinculação denominacional, e a identificação pessoal pelo individualismo e o liberalismo econômico.

A IMPD especificamente, que é fruto da fragmentação do neopentecostalismo brasileiro, tem à sua frente duas grande possibilidades: poderá continuar com as “características que marcaram o neopentecostalismo”, ou “romperá com o mesmo adquirindo uma nova formatação” e configurando o futuro do neopentecostalismo brasileiro.

Enquanto isso, os mochileiros continuarão peregrinando de acampamento em acampamento, temporada após temporada, buscando sempre uma nova experiência, uma nova aventura, afinal eles são livres para desejar e buscar o que desejam, custe o que custar, mesmo que não saibam definir qual é o seu objetivo.

Resumo do livro “Mochileiros da Fé”, de Ricardo Bitun.
Por: Paulo Sergio Visotcky da Silva, trabalho apresentado no curso de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em cumprimento da matéria Sociologia Geral.

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