A Santa Ceia do Senhor, e os Benefícios Conferidos por Ela


Por João Calvino

Deus, depois de nos ter recebido em Sua família, não para servir-Se de nós como criados, e sim para ter-nos no número de Seus filhos, a fim de conduzir-nos como um bom Pai de família, que Se preocupa com Seus filhos e descendentes, e pensa no modo de sustentar-nos durante toda nossa vida. E não contente com isto, nos quis dar a segurança de Sua perpétua liberalidade para conosco, dando-nos um presente. Para este fim instituiu por meio de Seu Unigênito Filho outro sacramento; a saber; um banquete espiritual, no qual Cristo nos assegura que é o Pão da Vida (João 6:51) com o Qual nossas almas são mantidas e sustentadas pela bem aventurada imortalidade. E como é sobremodo necessário entender um tão grande mistério; e por ser tão profundo, requer uma explicação particular [...] me esforçarei em primeiro lugar para explicar o que se deve saber a respeito da Santa Ceia do Senhor. 

[...] O pão e o vinho são sinais de uma realidade espiritual [...] os quais representam o mantimento espiritual que recebemos do Corpo e Sangue de Cristo. Porque como no Batismo, ao regenerar-nos, Deus nos incorpora a Sua Igreja e nos faz Seus por adoção, assim também temos dito que com este desempenha o papel de um zeloso Pai de família proporcionando-nos continuamente o alimento com o qual nos conserva e mantém naquela vida que nos gerou com Sua Palavra. O único sustento de nossas almas é Cristo, e por isso nosso Pai Celestial nos convida para que venhamos a Ele, para que alimentados com este sustento, possamos dia após dia ter maior vigor até chegar por fim à imortalidade no Céu. E como este mistério de nos unirmos com Cristo é por sua natureza incompreensível, Ele nos mostra a figura e imagem com sinais visíveis mui próprios de nossa débil condição. Mais ainda; como se nos desse um presente, nos dá tal segurança disso, como se O víssemos com os nossos próprios olhos; porque esta semelhança tão familiar: que nossas almas são alimentadas com Cristo, exatamente igual o pão e o vinho natural alimentam nossos corpos, penetra nos entendimentos, por mais rudes que sejam. Vemos pois para que fim este sacramento foi instituído; a saber, para nos assegurar que o Corpo do Senhor foi, uma vez por todas, sacrificado por nós, de tal maneira que agora O recebemos, e ao recebermos sentimos em nós a eficácia deste único sacrifício. É desta forma, que Seu sangue de tal maneira tem sido derramado por nós, que nos possa servir de bebida perpetuamente. Isto é o que dizem as Palavras da promessa, que ali se adicionam: “Tomai, comei, este é o Meu corpo, que é dado por vós” (Mt 26:26; Mc 14:22; Lc 22:19; 1 Co 11:24). Assim, nos manda que tomemos e comamos o Seu Corpo que uma vez foi oferecido para nossa salvação, a fim de que tenhamos a plena confiança de que a virtude deste sacrifício se mostrará em nós. E por isso chama o cálice, Pacto em Seu Sangue; porque de certa forma renova o Pacto que uma vez fez com o Seu Sangue. 

Extraído e adaptado do site MONERGISMO. Texto completo em http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/ceia_calvino.htm.

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