O TESTEMUNHO CRISTÃO – DISCIPLINA ECLESIÁSTICA



“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na Terra terá sido ligado nos Céus, e tudo o que desligardes na Terra terá sido desligado nos Céus.” Mateus 18:18.

Os estudos anteriores da série “O Testemunho Cristão”, frisam a necessidade que o crente tem de dar bom testemunho, refletindo a glória de Cristo em seu modo de viver. Mas como agir quando o mau testemunho cresce e se torna escândalo? Como agir ao ver, ou saber que alguém está dando mau testemunho? A atitude mais comum é ignorar e agir na filosofia do “cada um na sua” e “deixa disso”. Mas será que o individualismo é aplicável em todos os casos? Talvez seja a saída mais conveniente, humanamente falando, e que conceda certa sensação de “imunidade”, haja visto o grande risco que se corre ao tentar corrigir ou orientar alguém que está cego na prática do mal. Mas em se tratando da Igreja, essas conveniências humanas precisam ser abdicadas em função de um bem comum e muito mais elevado: a saúde espiritual da própria Igreja (1 Co 5:6-8). Não se trata de farisaísmo, apedrejamento, ou um tipo de “caça às bruxas”, mas se o mau testemunho em si é pecado, e está ligado a outros tipos de erro, não se pode ignorar e balançar os ombros como quem diz: “Não estou nem aí, que se dane!” O crente não pode “nem estar aí” para com a saúde espiritual de seus irmãos e da própria Igreja. O pecado precisa ser combatido, pois se a Igreja tolerar o pecado, não o combatendo, ela perde a sua identidade, não glorifica a Deus, e aos poucos, vai morrendo com um câncer que a corrói e contamina os outros membros. É necessário que haja disciplina na Igreja, mas praticada com amor e misericórdia, tendo como base o que Jesus estabeleceu em Mt 18:15-18.

Nesse texto sagrado o Senhor Jesus nos ensina como lidar com essas questões, não exagerando ao ponto de machucar, mas também não sendo complacentes com o erro, permitindo que o mal se estabeleça. São três passos que precisam ser dados na direção da cura e restauração do crente faltoso. Todos esses passos, tem que ser pautados pelo amor e franqueza (Pv 27:5). Se você viu um irmão vivendo fora dos padrões estabelecidos pela Palavra de Deus, procure-o isoladamente, para conversar com ele. Ore por ele e procure ajudá-lo a vencer tal dificuldade. Se ele não o ouvir e permanecer na prática do pecado, chame mais uma ou duas pessoas da Igreja para ajudá-lo a falar com ele novamente, persuadindo-o a entender a verdade. Somente depois de um trabalho cuidadoso e pessoal é que o caso deve ser comunicado à liderança da Igreja para disciplina do mesmo, caso não haja demonstração de arrependimento.

1º passo: ir ter com o faltoso em particular. “Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão.” (Mt 18:15). Considerando que qualquer pecado é contra Deus e contra o Corpo de Cristo, que é a Igreja, as faltas que cometemos não terminam em nós mesmos, mas afetam a vida espiritual Igreja. Dependendo da gravidade, há pecados que causam o mal testemunho da Igreja, seja a Igreja local ou a denominação nacional, e que difamam o nome de Cristo (Rm 2:24). Nesse caso o “pecar contra ti” não trata somente de questões ligadas à relação comum entre irmãos e alguma falta cometida, mas refere-se a qualquer pecado, pois eles afetam à Igreja. Esse é o primeiro passo para se ajudar quem está com problemas, mas é um dos pontos em que há mais resistência, tanto por parte de quem está errando (“O que você tem com isso?”, “Vai cuidar da sua vida, que da minha cuido eu”, etc.); quanto por parte de quem tem o dever de exortar (“Eu não me meto da vida dos outros”, “Temos que amar as pessoas do jeito que elas são”, “Se eu falar alguma coisa vou me queimar”, “Fulano é sistemático e não aceita que se fale nada da vida pessoal dele”). Os argumentos contrários são muitos, de ambas as partes, mas isso não pode nos impedir de fazer o que Deus nos manda: “Vai ter com ele, tu e ele só!” É uma conversa em particular, sem exposição ou humilhação onde o que for falado deve educadamente, com amor e sabedoria, visando persuadir o faltoso à prática da verdade. Mas ainda assim é um risco que se assume ao obedecer ao que Deus ordenou. Podemos sim “perder” um amigo, podemos sim ser mal vistos (“fariseu hipócrita”, “dedo duro”, “acusador”, “juiz”, etc.). Mas se estivermos dispostos a cumprir as Escrituras sempre seremos taxados disso ou daquilo. Repito: esse é um ato que deve ser praticado em amor, respeito e oração. A grande possibilidade e expectativa é que haja arrependimento, ou seja, que essa pessoa nos ouça e receba a nossa fala com vinda da parte de Deus: “Se ele te ouvir, ganhaste teu irmão”. Se isso acontecer, glórias a Deus! O Senhor fez a obra, quebrantou aquele coração e nos usou. Estejamos certos de que aconteça o que acontecer, fizemos a vontade de Deus e não abandonamos o soldado ferido à mercê do inimigo.

Destaco aqui a grande importância do ministério de aconselhamento que tem sido relegado aos pastores e a alguns raros presbíteros que dispõe, como se não fosse obrigação dos irmãos se aconselharem mutuamente. Na verdade, não há como se ausentar disso, pois todos somos conselheiros uns dos outros. Resta-nos saber que tipo de conselhos temos oferecido, pois em nome da “amizade” muitos conselhos pérfidos são tidos como bons. Em outros casos o silêncio conivente soa até como um conselho silencioso do tipo: “tudo bem, eu concordo com você”, ou “conte comigo, é nosso segredinho”. Falar com um irmão faltoso em nome de Deus, aconselhando-o ao arrependimento é pura prova de amor cristão, que temos que ter uns com os outros. Fazer de tudo para impedi-lo de cair no lamaçal do pecado, ou até tirá-lo de lá, caso já tenha caído, é prova de que temos o Espírito Santo em nossos corações. E se nos ausentarmos disso, prestaremos contas no Dia do Juízo (Ez 3:18).

2º passo: ir ter com ele novamente e levar uma ou duas testemunhas. “Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça.” Mateus 15:16. Esse segundo passo é o começo de um meio mais árduo e doloroso de tratamento, pois o faltoso já demonstrou resistência e desejo de permanecer na prática do pecado, ou que não está conseguindo sair sozinho dessa situação. Depois de se falar particularmente, nota-se que ainda há persistência no erro, e então o Senhor nos orienta a falar novamente com essa pessoa, cobrando dele (a) uma mudança de atitude. Porém agora a ordem é que se leve uma ou duas pessoas que servirão de testemunhas para a resolução de toda essa problemática. Isso em si é mais traumático, pois além da agravante de ser a segunda vez que se toca no assunto, traz consigo sinais de um ato litigioso, pois as testemunhas farão parte de um processo disciplinar futuramente (vs.16b), caso o faltoso não mude de atitude. Mas nesse passo, o intuito ainda é o convencimento, de modo que haja arrependimento e transformação. Talvez uma das grandes dificuldades seja conseguir essas testemunhas, devido ao modo como muitos crentes lidam com essas questões, com argumentos não bíblicos, focando a privacidade da pessoa e o direito que ela tem de fazer o que bem entender. Mas Deus sempre suprirá a Sua obra com crentes piedosos que amam de fato a Igreja e que estarão dispostos a agir no amor. No caso, falar com o faltoso nada mais é que amor em ação, e não apenas teoria, visto que isso tudo toma o tempo e envolve o emocional desses que estão agindo em busca da restauração do irmão que se desviou, ou que caminha nessa direção.

3º passo: levar ao conhecimento da Igreja. “E, se ele não os atender, dize-o à Igreja; e, se recusar ouvir também a Igreja, considera-o como gentio e publicano.” Mateus 15:17. Esse é o pior momento na aplicação de disciplina eclesiástica, porém tão importante quanto o primeiro e o segundo passo, por isso não pode jamais ser negligenciado, apesar do sofrimento que toda a situação causa. Se até aqui o faltoso não demonstrou arrependimento e mudança de atitude, a ordem do Senhor é que os fatos em questão sejam levados ao conhecimento da Igreja. Certamente não se trata de espalhar para os irmãos tudo que foi apurado, e que já é do conhecimento de alguns. “Dizer à Igreja”, significa que uma denúncia deve ser apresentada à liderança competente da Igreja, discretamente, sabiamente, e em espírito de oração. Caberá, a partir de então, à liderança da Igreja tomar as devidas providências: observar qual a intensidade das questões abordadas, se são pecados mais ou menos graves, e convocar o faltoso para tratar do assunto, seja pastoralmente quanto disciplinarmente.

Na IPB, as questões que chegam nesse ponto de apresentação de denúncia, são tratados com temor e tremor diante de Deus, em oração e fé, piedosamente e com muito amor para com o faltoso, mas acima de tudo amor à Deus e à Sua Noiva, que é a Igreja. Em síntese, se observará se o faltoso demonstra arrependimento, e a aplicação da disciplina ocorrerá em três passos: 1 – admoestação, que será proferida em uma reunião de Conselho e lavrada em ata. 2 – Afastamento da comunhão por tempo indeterminado, até que haja demonstração de arrependimento por parte deste que está sendo disciplinado. 3 – Exclusão do Rol de Membros da Igreja, quando o faltoso permanece no erro, mesmo após todos os passos que já foram dados até aqui (Mt 15:17-18; 1 Co 5:3-5).

CONCLUSÃO

Algumas observações importantes: 
1 – A IPB só aceita denúncia por escrito, ou seja, verbalmente ninguém é acusado formalmente. 
2 – Há pecados que são graves, públicos e notórios, enquanto outros, ainda que pecados, podem ser menos graves e ocultos. No caso de pecados graves, em especial os públicos e notórios (assumidos), e principalmente quando praticados por oficiais (pastores, presbíteros ou diáconos), os dois primeiros passos não são necessários, necessitando apenas da denúncia para em seguida ser feita a convocação para, apuração e disciplina.
3 – Quando pastores forem alvo de denúncia, a disciplina nesse caso será aplicada pelo presbitério.

É importante ressaltar que muitas Igrejas são contra a disciplina eclesiástica, e muitos presbiterianos também discordam de tudo isso. Porém, cremos que essa atitude leniente constitui desobediência à Palavra de Deus. Os atos disciplinares visam não sacrificar o crente que peca, sofre e faz outros sofrerem, mas visam a sua cura e restauração.

Tristemente muitas Igrejas passam por um tempo de grande dificuldade na aplicação das disciplinas eclesiásticas. Nota-se uma forte tendência ao individualismo, como se a disciplina fosse algo ruim para a vida da Igreja. Muitos crentes preferem fingir que não sabem de nada que está acontecendo, ignorando os problemas que a Igreja sofre, como se não os afetassem. Seria por não quererem se envolver? Ou porque eles mesmos tem seus segredos e não querem ser expostos? Eles não sabem o mal que estão causando à obra de Deus? (Ef 4:30). Certamente Deus lhes pedirá contas, e talvez esse tempo já tenha chegado (Ec 11:9). Como podemos saber que há casos de adultério, fornicação e homossexualismo sendo cometidos em algumas Igrejas e ninguém toma medidas para que o mal seja contido e tratado? E quantos (falsos) pastores, verdadeiros “matadores de Igrejas” falarão e farão coisas absurdas, sem que os seus presbitérios façam-nos parar? Quantos crentes, em nome do “amor” acobertarão o pecado de seus líderes? Se queremos ver o poder de Deus em nosso meio, convertendo e transformando vidas, precisamos ter coragem para agir conforme o que já nos foi ordenado na Palavra, visando a pureza da Noiva de Cristo (2 Co 11:2). Se não houver purificação, a Igreja morre (Ap 2:1-7).

IPB de Brasilândia, estudo bíblico 14/07/16
Congregação Jardim Peri Alto, estudo bíblico 10/08/16.
Leia o estudo completo – O TESTEMUNHO CRISTÃO.

SOLI DEO GLORIA!!!

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