MINISTRANDO EM MEIO À TRAGÉDIA EM SANTA MARIA

Por: Eleny Vassão
IPB de Vila Gerti, S.C.Sul / SP
Pastoral Boletim 24.02.13 

O policial rodoviário correu com seus colegas para a boate Kiss, ponto de encontro dos jovens da cidade. Tinha recebido chamado para atender às vítimas de um incêndio que principiara poucos minutos antes no local abarrotado de universitários que comemoravam o final de seu ano letivo das faculdades de Santa Maria.

Não esperava encontrar aquele quadro terrível: eram muitos corpos de meninas e meninos que tinham acabado de sair da adolescência, e agora jaziam no chão, sufocados pela fumaça venenosa e assassina. Dominando a dor e o medo, foi carregando corpo a corpo. Levou alguns até as ambulâncias, onde os médicos e paramédicos atendiam com rapidez. Outros, já não havia mais o  que fazer.

Já tinha lidado com muitos corpos, quando parou assustado ao ver caída no chão, uma jovem com rosto muito conhecido e amado: sua sobrinha. Então, não podendo mais conter as emoções, correu para casa. Chorou com sua família, tomou um banho e foi logo dar a triste notícia para o irmão. Então, voltou para cuidar dos outros jovens.

A multidão se comprimia na porta da boate. Gritos, choro, nomes pronunciados na esperança que ainda pudessem responder, abraços e murmúrios de pais chocados pela tragédia. Muitas histórias, muitas vidas jovens, muitas famílias atingidas pela morte. A cidade toda se pôs em luto, pois todos perderam alguém a quem amavam. Mais de 40 destes jovens, filhos de crentes de diversas denominações evangélicas, também morreram no incêndio. Alguns, talvez porque estivessem comemorando junto com sua turma. Outros, pela pressão dos colegas. Outros, porque estavam afastados da Igreja, desiludidos com o Evangelho ou com os evangélicos.

Uma mãe crente acordou sobressaltada no meio da noite. Certa de que o Senhor a estava avisando que algo muito ruim estava para acontecer na boate onde seu filho estava, vestiu-se e correu para lá, arrancando o garoto contra sua vontade, de sua diversão. Muito irado o rapaz foi dormir, temendo a imagem que ficara diante de seus colegas. Um deles o acordou ao celular pela manhã. Perguntava-lhe onde estava. Só então ele soube do que Deus o livrara. Outro casal de jovens da Igreja chegou até a porta da boate por volta das duas horas da manhã. Já iam entrar, quando sentiram que deveriam ir embora e o fizeram. Foram poupados da morte.

O policial, no dia seguinte, estava no funeral de sua sobrinha. Sendo também pastor, podia procurar na Bíblia palavras de consolo para os seus queridos e ministrar aos seus corações. Mas o que mais fez foi usar seus braços para, envolvendo o irmão, lhe dizer sem qualquer palavra que estava ali com ele, o amava e estaria sempre à sua disposição para viver o amor de Deus de modo a compartilhar de seu sofrimento.

O que você diria a estas pessoas, famílias, amigos, colegas, professores, bombeiros e oficiais da aeronáutica aflitos diante da perda de seus queridos? Várias organizações e ministérios de todo o país prontamente se deslocaram para a cidade de Santa Maria, procurando de alguma forma demonstrar sua solidariedade e ajudar.

Quando a Sociedade Bíblica do Brasil chegou à cidade, logo no dia seguinte ao incidente, procurou alcançar as Igrejas e suas lideranças, doando-lhes material bíblico para que pudessem agir no cuidado das famílias enlutadas e também dos pacientes que haviam sido hospitalizados por causa das queimaduras e da fumaça tóxica.  Um dos livretos doados foi “Deus Está Presente – Amparo de Deus no Luto”, material que preparei com o intuito de oferecer às Igrejas ferramenta para consolo e evangelização em funerais.

Este livreto é escrito em tom de conversa com o enlutado, falando sobre a sua perda irreparável, a permissão para chorar, a dificuldade em aceitar a partida e suas emoções em meio ao luto, como: culpa, raiva, insegurança, solidão, medo e outras. O último capítulo é sobre a reconstrução da vida, mesmo com a dor da perda. Trechos de conversa com o leitor são maneiras de falar ao seu coração, atraindo-o para a leitura dos versículos bíblicos colocados a seguir, mostrando o amor e o cuidado do Senhor ao lhe oferecer o Seu consolo através da Sua Palavra. 


Muitas vezes confuso e perdido em suas flutuações emocionais, o enlutado não recebe grande apoio de sua Igreja, pois esta nem sempre sabe o que dizer ou como agir.  Podemos até mesmo ouvir frases como: “Não chore, você é jovem e ainda poderá ter outros filhos!”, ou “Já é tempo de você deixar de ficar com esta cara comprida e triste! Você não sabe que ele foi para o Céu, e está muito melhor do que nós? Você não tem fé? Não crê em Deus?”

Ao entregar o farto material bíblico às Igrejas, a equipe da Sociedade Bíblica do Brasil ouviu frases como: “Mas nós não sabemos o que fazer com este material... Não sabemos como consolar!” Por esta razão, fui convidada a ir até a cidade e fazer uma palestra para a liderança evangélica de Santa Maria, ajudando-os a se preparar para  melhor servir à população.

À tarde, o pastor e policial que perdeu sua sobrinha no incêndio da boate pediu-me para usar o seu programa da TV comunitária para falar ao coração das famílias enlutadas, confortando-as com a Palavra de Deus. Este programa é veiculado bem tarde da noite, quando as pessoas estão mais reflexivas, sem conseguir dormir, e ficam diante da tela da TV. Ele é assistido principalmente por espíritas e católicos da cidade. E o Evangelho foi apresentado, como o único meio de consolo e a esperança eterna que Deus oferece à todo o que nEle crê.

Em grandes outdoors, espalhados por toda a cidade, estava a chamada dos espíritas para um congresso: “Venha falar com o seu filho!”

Numa região dominada pela nova era, macumba e espiritismo em geral, a Igreja Cristã precisaria estar melhor equipada, bem articulada e preparada para agir com intrepidez, ousadia e competência em qualquer situação de emergência, agindo como sal da Terra e luz do mundo, levando consolo e salvação, lutando pela justiça, saindo de suas quatro paredes para viver o amor de Deus, de modo a abraçar um mundo que, sem escolhas, busca outras luzes para iluminar as trevas de seu coração.

Foi muito pouco o que pude fazer. Gostaria de ter tido condições para servir melhor, ajudar de maneira mais profunda e contínua. Mas saí dali refletindo sobre a necessidade de acordarmos para a realidade que nos rodeia. Não podemos mais perder oportunidades.  Se não estivermos proclamando a Verdade, estaremos, através da nossa omissão, permitindo que as trevas avancem e que as pessoas morram em seus delitos e pecados. E eu não quero ser responsabilizada pelo Senhor por aquilo que deixei de fazer.

Eleny Vassão de Paula Aitken, Mestre em Aconselhamento Bíblico, é Capelã Hospitalar e Missionária da Igreja Presbiteriana do Brasil. Casada com o missionário americano Gavin Levi Aitken, tem 6 filhos e netos. Foi Capelã Evangélica Titular do Hospital das Clínicas FMUSP por 22 anos, atualmente é Capelã Evangélica Titular do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Hospital do Servidor Público do Estado. É presidente da ACEH - Associação de Capelania Evangélica Hospitalar, coordenadora da Casa do Aconchego. Autora dos livros: "Aconselhamento A Pacientes Terminais"; "Aconselhamento A Pessoas Em Final De Vida"; "A Missão Da Igreja Frente A AIDS"; "Dor Na Alma"; "Mal Em Bem"; "No Leito Da Enferminade"; "O Meu Deus É Maior Do Que O Câncer" (Editora Cultura Cristã).


SOLI DEO GLORIA!!!

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