UM CULTO EM MARS HILL CHURCH

Por: Augustus Nicodemus Lopes d

Aproveitei uma visita ao Discovery Institute em Seatlle e no domingo fui com meu amigo Davi Gomes à famosa Igreja do Mark Driscoll, a Mars Hill Church, localizada em Ballard, próximo ao centro de Seattle. Eu poderia ter ido a várias outras Igrejas, inclusive presbiterianas, mas quis conhecer em primeira mão a Igreja do Driscoll. Afinal, tem havido tanta controvérsia sobre ele entre reformados que não poderia deixar passar a oportunidade de formar, por mim mesmo, uma opinião sobre sua Igreja.

Eu sabia que ele não estaria lá neste domingo. Ele estaria pregando em Chicago. Já conheço bastante o Driscoll através dos podcasts de seus sermões e faltava apenas conhecer seu ministério.

Anoto aqui algumas observações sobre o que vi e ouvi. 


A primeira delas é quanto à igreja em si. Trata-se de uma edificação térrea, sem andares, que não parece de forma nenhuma com uma Igreja. A gente só sabe que é lá porque tem uma placa dizendo “Mars Hill Church” e os horários dos cultos (foto). Uma vez dentro, o local de culto também não parece com nada que eu já havia conhecido. Trata-se de um ambiente enorme, para cerca de 2 mil pessoas, com uma iluminação fraca advinda de enormes abajures pendurados no teto sem forro, sem qualquer entrada para a luz do sol. Cinco telas enormes espalhadas pelo salão ficam transmitindo o culto, passando vídeos e divulgando as programações. O palco tem um púlpito simples ao lado de outra tela onde se projeta os textos bíblicos sendo usados. O pano de fundo são obras artísticas representando temas bíblicos, como a crucificação ou a ressurreição.

Há muita tecnologia visível. Três câmeras gravam e transmitem tudo ao vivo para outras localidades. As telas exibem informações de que os membros podem acompanhar a vida da Igreja pelo Twitter ou Facebook. Até mesmo a inscrição nos grupos de comunhão pode ser feita através de mensagens de texto pelo celular! Um jogo de luzes acompanha as músicas. O efeito geral é muito bonito, embora eu pessoalmente não goste muito de efeitos produzidos desta forma durante o culto.

Havia Bíblias disponíveis em toda parte. A versão usada é a ESV, preferida hoje pelos reformados em lugar da NVI e da King James. As cópias disponíveis eram personalizadas para uso da Mars Hill.

O ambiente no geral era totalmente informal. As pessoas pareciam estar totalmente à vontade, embora houvesse um respeito evidente a julgar pelo silêncio absoluto que acompanhava cada leitura da Bíblia, oração e mesmo a pregação. Não havia gente se levantando e andando pelo salão durante o culto. Mesmo as crianças ficavam perto de seus pais. É um ambiente acolhedor, confortável, informal, ao mesmo tempo que também é reverente e respeitoso.

Quanto às pessoas que estavam no culto, eu esperava encontrar cabeludos tatuados com brincos no nariz e na orelha desmontando de enormes Harleys barulhentas. Negativo. Entre as pessoas que vi, apenas uma ou duas tatuadas e uma somente com brinco na orelha – uma proporção absolutamente normal mesmo para padrões brasileiros. A maioria era de jovens adultos vestidos de maneira absolutamente normal. Muitas crianças e adolescentes e uns poucos velhos. Eu diria, julgando pelos carros estacionados, que não são pessoas da classe alta, mas americanos de classe média baixa. 


Se me recordo corretamente, a seqüência do culto foi esta: abertura com leitura de Hebreus 12 e uma breve oração, dois cânticos (já já falo sobre isto), um testemunho, avisos das atividades da Igreja, mais um cântico, pregação (cerca de 45 minutos), oração, celebração da Ceia, testemunhos, recolhimento de ofertas, mais dois cânticos e pronto. Durou tudo cerca de 2 horas. Embora eu pessoalmente prefira um culto mais litúrgico, não me senti um "peixe fora d’água". Não gostei da mistura de avisos com o culto, mas tirando isto, de fato o centro do culto foi Cristo e sua obra.

Alguns comentários sobre as diferentes partes do culto. Primeiro, as músicas. O louvor estava a cargo de uma banda que tocou todas as músicas no estilo rock, com a bateria pegando pesado e solos de guitarra. Apesar disto, não houve gente dançando e nem requebrando, apesar das palmas. O Davi me chamou a atenção depois para ao fato de que várias das músicas eram hinos tradicionais tocados neste estilo – eu na verdade só havia reconhecido um! Não me admira, então, que gostei de todas as letras! Eu pessoalmente prefiro outro estilo musical para a adoração e exultação, mas entendo que este estilo musical alcança bem as pessoas aqui no contexto de Seattle, da geração que Mars Hill tem como alvo. A banda era muito boa, tocou em nível profissional, ao contrário das improvisações e do amadorismo que encontramos em muitas de nossas Igrejas.

Uma coisa que apreciei foi que o dirigente do louvor não ficava dando bronca na Igreja entre as músicas nem tentando fazer a ponte entre uma música e outra citando passagens da Bíblia. Ele entendia perfeitamente que a missão dele era conduzir o louvor e se ateve exatamente a isto. Outra coisa positiva foi que não tentavam ficar fazendo fundo musical durante as orações ou palavras de exortação do Pastor.

Segundo, a pregação. Como eu disse, não foi Mark Driscoll quem pregou, mas um Pastor da equipe daquela Igreja. O que me chamou a atenção, antes de qualquer coisa, foi que ele e um outro Pastor que dirigiu a liturgia se vestiam exatamente como Driscoll: calça jeans, camisa por fora das calças e tênis! Até na maneira de falar e gesticular havia a sombra do Driscoll. Quero crer que Mark teve um impacto muito forte na sua equipe e que esta semelhança não é intencional ou proposital.

Bom, o sermão foi em Lucas 17, a cura dos dez leprosos. Foi uma excelente exposição bíblica. As idéias teológicas eram claramente reformadas, como a doutrina da depravação total, a soberana graça de Deus e a salvação pela fé somente, na obra completa e eficaz de Cristo. A linguagem era fácil, respeitosa, limpa, havia muitas ilustrações e o tom era bem evangelístico. Não houve apelo para as pessoas levantarem a mão aceitando Jesus e nem para virem à frente, mas houve um forte apelo para que aqueles que foram tocados pela mensagem procurassem os pastores ao final.

Durante o sermão as pessoas ficaram absolutamente silenciosas, escutando atentamente a pregação. Era evidente que o sermão era o centro do culto e foi a parte que mais demorou. As músicas escolhidas giravam em torno do tema da mensagem, que foi a graça de Deus em tocar pecadores perdidos, como Jesus tocou aqueles leprosos.

Terceiro, os testemunhos. Ao final da mensagem, depois da Ceia, um dos pastores desceu e foi conversar com algumas pessoas, e escolheu três para darem testemunho de como Cristo havia tocado suas vidas, à semelhança dos leprosos. Foram testemunhos sóbrios, curtos e bem focados. Um em especial emocionou a todos, de um pai cuja filha havia morrido na semana anterior. A confiança deste pai em Jesus Cristo e na ressurreição causou uma profunda impressão em muitos.

Quarto, a celebração da Ceia. Este foi talvez o ponto que achei mais fraco. Devido à grande quantidade de pessoas, há vários pontos no salão onde ficam disponíveis uma taça de vinho e outro de suco de uva, ao lado de uma cesta de pão sem fermento. As pessoas que querem participar chegam, molham um pedaço de pão no vinho ou no suco de uva, e retornam para seus lugares. Uns comem na hora, outros esperam mais para o final, ficou meio desorganizado e se perdeu o senso de comunhão. Também faltou uma explicação mais clara sobre o que era a Ceia e o que os elementos representam. Todavia, é preciso ressalvar que eles não encorajam a que todos participem. Foi dito claramente que se alguém tem consciência de pecados cometidos e não resolvidos, que não deveria participar.
A brochura distribuída no balcão de visitantes, à entrada do salão de cultos, informa que eles têm celebração da Ceia em todo culto – algo a que João Calvino teria dado um retumbante “amém”!

A impressão geral é que o culto é voltado para pessoas quebradas, estragadas pelo pecado, necessitando de arrependimento, perdão e encorajamento. É tudo muito focado na graça. É o tipo de Igreja em que pessoas arrebentadas por seus próprios erros e pelos erros de outros se sentirão acolhidas, perdoadas e respeitadas. Estou falando de usuários de drogas, prostitutas, gente que foi abusada sexualmente, mulheres espancadas – enfim, o catálogo é enorme. Em Mars Hill esse pessoal é recebido e a ministração é voltada especialmente para eles. A mensagem do Evangelho e o chamado ao arrependimento e reconciliação com Deus são proclamados muito claramente.

Ao final, penso que o modelo de Mars Hill provavelmente não funcionaria no Brasil, a não ser em alguns ambientes específicos. Mas, penso que o princípio por detrás de Mars Hill merece nossa consideração. Ou seja, que nós, reformados no Brasil, precisamos encontrar uma maneira de ser reformados que seja mais eficaz e relevante para nossa própria cultura, sem comprometer princípios bíblicos. Precisamos refletir seriamente sobre o quanto na tradição reformada é inegociável por ser bíblico, e o quanto pode ser alterado e mudado por representar apenas a maneira reformada de ser de nosso pais e avós séculos passados.

O Tempora! O Mores!

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