INTRODUÇÃO AO NT - OS EVANGELHOS SINÓTICOS

Por: Rev. Ivan Pereira Guedes

Antes de iniciarmos o estudo de cada um dos Evangelhos, é necessário entendermos melhor a questão relacionada com os chamados Evangelhos Sinóticos.  Embora cada Evangelho tenha sua ênfase e propósito distintos, os três primeiros são chamados às vezes de Evangelhos Sinóticos porque eles “vêem juntamente”, ou seja, eles têm o mesmo ponto de vista em relação à vida e obra de Cristo.  Além disso, eles também apresentam a vida de Cristo em uma forma distinta, mas complementar, da oferecida por João em seu Evangelho.

Este assunto vem ocupando a atenção dos eruditos do NT durante o último século e meio. Resumidamente podemos expor a problemática sinótica conforme o faz, Russell N. Champlin em seu artigo ‑ "O Problema Sinóptico” – conforme abaixo transcrito:  

            1. Os Evangelhos foram escritos "independentemente" uns dos outros, sem qualquer fonte comum oral e escrita, sendo narrativas somente feitas de memória?

            2. Se houveram fontes comuns escritas ou orais, de que natureza e quantas eram elas?

            3. Qual dos Evangelhos sinópticos é primário? E esse Evangelho foi usado diretamente como fonte de Informação pelos demais evangelistas? Nesse caso, como explicar as diferenças, até mesmo no material em comum?

            4. Qual foi a fonte de material usado pelos Evangelhos não‑primários, naquilo em que estão de acordo entre si, nas passagens que não figuram em Marcos?

            5. Quando um Evangelho não‑primário tem material peculiar a si mesmo, qual foi sua fonte informativa?

           6.  Quais foram as fontes informativas do Evangelho primário?

Como podemos perceber nenhuma destas questões podem ser, com justiça. deixadas de lado ou suprimida. Todavia, inumeráveis propostas tem sido produzidas para esclarecer esta questão sinóptica. Cada uma delas é capaz de explicar alguns aspectos do problema, mas não é suficiente para esclarecer todos. Analisando estas propostas chegamos à conclusão de que uma solução definitiva há de ser complexa. A melhor solução é aproveitarmos o que cada uma das diversas hipóteses tem de confiável.

Aqueles que desejam depreciar o valor inspirativo das Escrituras, como os liberais e racionalistas, dão grande relevância à questão sinótica, declarando inclusive que de uma resposta coerente depende a autoridade e credibilidade dos Evangelhos. Mas infelizmente eles procuram a solução partindo  preponderantemente de critérios filológicos e literários, alienados dos testemunhos históricos e do sentido inspirativo que caracterizam a origem dos Evangelhos. É por este motivo que se tem multiplicado estudos e opiniões mais ou menos arbitrárias sobre a redação e a fidelidade dos Evangelhos.

Uma vez que novos estudos acabaram por tornar obsoletas grande parte das hipóteses elaboradas no século passado, nos limitaremos a expor, para maior entendimento desta questão, apenas os estudos aceitos pela maioria dos estudiosos como sendo os mais coerentes.

“A palavra sinótico (synoptico) vem do grego synoptikós de svnopsis (svn, com + ópsis, visão) e significa 'o que tem a mesma visão, ou perspectiva'. Realmente, a designação Evangelhos Sinóticos se originou de fato, em 1776, quando J. J. Griesbach deu o nome de sinopse a uma publicação (Synopsis Euangeliorum) do texto paralelo dos três primeiros Evangelhos, pois tanto se assemelhavam entre si que podiam ser justapostos em três colunas paralelas de modo a ser lidos de um só relance. É somente a partir de Griesbach que se usa editar os três primeiros Evangelhos em colunas paralelas." BETTENCORT, Estevão.  "Para Entender os Evangelhos", Livraria Agir Editora. Rio de Janeiro, 1960. p. 185 e MIRANDA, 0. A., "Estudos Introdutórios dos Evangelhos Sinóticos", Cultura Cristã. São Paulo, 1989, p.41.  


Wallace é taxativo: “Qualquer discussão séria dos Evangelhos Sinóticos devem, mais cedo ou mais tarde, envolver uma discussão da interrelação literária entre Mateus, Marcos e Lucas. Isto é essencial para que se vejam como cada autor utilizou-se das suas fontes, bem como quando ele escreveu.” Daniel B. Wallace, "O Problema dos Sinóticos", wallece@bible.org.

"Tal problema não preocupou muito os antigos e medievais, com exceção talvez de S. Agostinho (+430) na sua obra 'De Consensu Evangelistarum' ... A questão sinóptica data, pode‑se dizer de fins do século XVIII; desde então os críticos a têm estudado com afinco, à luz de uma bibliografia sobre o assunto que hoje é vastíssima." BETTENCORT, Estevão.  Op. Cit., p. 187.

RUSSELL, N. C. - "O Novo Testamento Interpretado", ed. 5ª, v. 1, Milenium, São Pauloo, 1985. p. 174.

"No início de 1913, o Pe. Prat contava mais de cem teorias arquitectadas para explicar o ‘caso sinótico’ e acrescentava: ‘Se o problema sinótico ainda não foi resolvido, isto se dá certamente porque é insolúvel’." ("La Question Synoptique", em Etudes 134 [1913] 350). BITTENCORT, E. op. cit. p. 191 nota.  


“Só se pode chegar a uma solução pelo exercício de juízo critico, depois que todos os informes relevantes tiverem sido examinados e que as possibilidades alternativas tenham sido levadas em consideração. Se a unanimidade ainda não foi conseguida depois de século e meio de estudo sinótico intensivo, isso talvez se deva ao fato que os informes são insuficientes para esse propósito, ou porque o campo examinado tem sido indevidamente restringido. No entanto, há diversas descobertas que merecem uma área nuito maior de concordância do que outras.” DOUGLAS J. D., op. cit., pp.568-569. 

Certamente este número cresceu muito desde então, mas cremos, que à luz da exegese contemporânea podemos encontrar algumas explicações satisfatórias quanto à questão sinótica, embora não sejamos esclarecidos sobre todas as suas múltiplas particularidades. 

Fonte: Reflexão Bíblica
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O autor é pastor titular da IPB de Vicente de Carvalho - Guarujá / SP.

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